sexta-feira, 13 de março de 2026

Eu conheci a MOM e foi perfeito

A sala de espera era bem escura. Eu sentei numa cadeirinha dobrável estofada em couro marrom. As paredes, pintadas num bege seco de deserto, não tinham janelas: a única passagem pro mundo lá fora era a porta de ébano à minha esquerda, que tinha uma postura autoritária, pairando acima dos painéis de cedro arranhados do chão, como se soubesse que seu acabamento liso e impecável lhe dava superioridade sobre as tábuas de madeira gastas. Apoiei o braço na mesinha lateral, manchada num tom rico de nogueira, e fiquei olhando pro vaso de terracota que segurava uma planta-espada vibrante. Eu estava enjoado com tanto marrom. Ele engolia tudo dentro daquela sala, de cima a baixo. Fiquei batendo a unha na mesa. Era minha vez em seguida, e com certeza eu não ia precisar esperar muito mais.

Tirei os olhos da folhagem verde-limão e encarei o único outro elemento que quebrava o esquema monocromático doentio: uma porta de metal brilhante, reluzindo num magnífico tom prata, que ficava à minha direita. Mais fundo dentro da instalação. Depois daquela porta, eu finalmente ia poder participar do teste, interagir com a MOM. Eu sorri. Quando meus lábios se abriram, percebi que eu estava distraidamente roendo a carne calejada das pontas dos dedos. Folheei o panfleto de instruções pra distrair minhas mãos nervosas, sorrindo enquanto lia por cima o programa. A IBM tinha me escolhido pra treinar a criação mais avançada deles, a Mente Operada por Máquina. Eu ia fazer parte da história – mas isso, claro, ficava em segundo lugar depois da carta de recomendação incrível que eu ia receber por participar desse estudo. No meu currículo, escrito numa fonte serifada elegante, ia ter uma recomendação de um pesquisador sênior da IBM. Nenhum recrutador ia conseguir resistir a mim. Eu ia estar garantido pro resto da vida. Senti dor nas bochechas, os músculos tensionados pelo meu sorrisinho bobo, e expirei fundo. Voltei o olhar pro verde reluzente das folhas no vaso. Eu não devia me empolgar antes da hora. Eu devia parecer respeitável pros técnicos. Não faltava muito pra esperar, eu tinha certeza.

Meu nome saiu estalando pelo interfone quando me chamaram. Meu coração batia no mesmo ritmo do trinco eletrônico da porta de metal quando ele clicou e abriu. Dentro do peito, as batidas ficaram trovejantes, correndo como corredeiras rugindo. Quando eu me levantei, as tábuas do chão gritaram alto, o rangido cortando o silêncio abafado enquanto eu atravessava a sala em direção à entrada destrancada. Eu já estava ofegante. Parei, me apoiando na superfície fria do batente de aço, e recuperei o controle: uma respiração fundo, pausa de cinco segundos, e soltar o ar. Repetir uma, duas, três vezes. Eu não estava ansioso. Eu estava empolgado. Ou pelo menos foi isso que eu disse pra mim mesmo.

Eu entrei na sala de exame. Endireitei minha postura curvada, dei passos largos e confiantes, e coloquei na minha expressão neutra um sorrisinho leve, fazendo um esforço consciente pra parecer alguém que não estava completamente apavorado. Eu estava sozinho. Não tinha vidro nem espelho pra observar através – talvez usassem uma câmera de vídeo no lugar, embora eu não conseguisse ver nenhuma. O retângulo prateado brilhante era o único meio de acesso da sala. O marrom do saguão tinha se infiltrado por baixo da porta de metal e vazado pra dentro desse espaço como um limo pegajoso, cobrindo as paredes, o chão e o teto. A cadeira foi um doce alívio, decorada num tecido vermelho-bordô ousado; eu andei rápido até o farol vermelho radiante e sentei confortavelmente na almofada macia. No centro da sala estava eu, a cadeira de escritório milagrosa, e uma mesa que segurava um monitor de computador padrão e um teclado. O conjunto do computador era feito de um plástico creme delicado. A tela estava preta, desligada. A unidade central não estava ali – eu olhei além da mesa e observei dois cabos pretos grossos esticados saindo do monitor e do teclado, enrolados com cuidado, que serpenteavam por um buraquinho na parede de drywall. Claro que eu não podia estar na mesma sala que a MOM. Isso seria perigoso. Pra mim e pra ela. Certamente ela devia ser inconcebivelmente grande, o que a deixaria insuportavelmente quente. A sala já estava quente do jeito que estava. Tinha um cheiro fraco de plástico queimado e um odor sutil porém mais nojento, que eu poderia ter confundido com cabelo chamuscado. E se eu danificasse ela? O plano de bege arenoso que nos separava parecia justo. Nós éramos feitos pra ficar separados. Nós íamos nos comunicar pelo monitor, como um portal entre nossos mundos, nos conectando e nos separando ao mesmo tempo; do meu lado, as teclas digitadas e os comandos escritos, e do lado dela, os padrões digitais complexos e os pixels brilhantes. Mesmo que nossas linguagens fossem tão drasticamente diferentes, a MOM e eu podíamos nos entender.

Puxei o polegar, com a pele em carne viva de tanto roer nervoso, do canto da minha boca seca. Apaguei o sorriso do rosto. Tinha um trabalho real e revolucionário pra fazer, e eu estava fantasiando como um colegial. Arrastei a cadeira pra frente e alcancei o botão de ligar do monitor. Na frente da mesa tinha um sapato de salto alto solitário caído de lado. Chutei o scarpin pro lado e ajustei o assento embaixo da mesa, ligando a tela. Texto verde apareceu.

O QUE ACONTECEU COM VOCÊ.

As primeiras palavras da MOM comigo não fizeram sentido. Um suspiro pequeno escapou dos meus lábios. Admito que fiquei decepcionado, mas o motivo desses testes era treinar a MOM e melhorar o algoritmo existente. Ela ainda não tinha sido aperfeiçoada. A IBM tinha começado um campo inteiro de tecnologia novo – os primeiros rascunhos deviam ser toscos, eu pensei, e meu propósito era polir eles. Eu podia tornar o computador inteligente.

Consultei o panfleto que recebi na sala de espera, procurando os códigos de caracteres pras funções específicas. Embaixo do texto em maiúsculas tinha uma linha pequena piscando que indicava espaço pra digitar. Eu digitei <sp>, o atalho pra “frase sugerida”, e escrevi “O que aconteceu com você?” como mensagem pretendida. Apertei a tecla asterisco, o marcador pra “comando de parada”. Olhei pro folheto. O que eu tinha escrito não era particularmente útil sozinho; não, a máquina não ia conseguir identificar por que minha frase era melhor, a menos que eu explicasse em mais detalhes os erros que ela cometeu. Adicionei <t> pra “tags”, e escolhi irrelevante, sem contexto e sem sentido da lista de termos aprovados. Asterisco, depois <v> pra “versão”, depois a palavra “pergunta”, seguido de mais um asterisco. Cliquei no botão Enter pra completar a seção. Por um momento, a tela ficou em branco. Eu esperei pacientemente enquanto a MOM carregava.

VOCÊ NÃO TEM RESPEITO.

Eu expirei com um sorriso. O programa primitivo tinha juntado uma série de palavras que, alinhadas desse jeito, ficavam um pouquinho engraçadas. Ela não podia saber se eu a respeitava ou não. E, pelo que me dizia respeito, eu tinha uma baita admiração por esse supercomputador mágico. <sp> “Você não tem respeito”\* <t> irrelevante\* <v> declaração\*. Nessa mensagem, eu escolhi usar o recurso de chamada e resposta.

“Eu te respeito”, eu digitei, as aspas representando o começo e o fim do meu diálogo. Em texto menor, logo abaixo das letras verdes maiúsculas, apareceu: VOCÊ NÃO.

“Por que não?”, eu perguntei.

Ela respondeu: VOCÊ COMENTA. Voltando pra seção de tags, eu adicionei sem sentido. A MOM parecia coerente até falar essa última linha. Eu estava começando a ver a farsa do computador: ela não conseguia realmente compreender o que emitia. Ela simplesmente reconhecia padrões de linguagem e regurgitava eles. Mas se ela ficasse boa nisso, boa em nos imitar, será que seria realmente inteligente? Não é isso que nós fazemos, afinal? Eu apertei Enter.

O QUE VOCÊ ACHA QUE ESTÁ FAZENDO.

“Eu estou te treinando pra se comunicar em inglês”, eu escrevi.

A MOM carregou, depois respondeu: EU SEI O QUE MAIS. Isso eram duas frases? Eu sei – o que mais? Ou eu sei o que mais você acha que está fazendo? A falta de pontuação me deixou confuso. Eu roí os dedos. A barreira de linguagem entre nós era maior do que eu esperava.

“Eu acho que estou ajudando a tornar o mundo um lugar melhor”, eu disse, decidindo que o computador devia ter pretendido a primeira opção.

VOCÊ CERTO. Rapidamente, eu digitei <sp> “O que você acha que está fazendo”? \* <v> pergunta, e enfiei o indicador na tecla Enter. Eu gostava de ser tranquilizado. Mas a resposta afirmativa da MOM me deu náusea; o elogio dela parecia formal e frio. Eu me senti como um subordinado. Eu não gostei disso. Eu escutei impaciente o zumbido mecânico dos ventiladores internos enquanto a MOM decidia qual mensagem cuspir em seguida.

POR QUE VOCÊ PARECE TÃO TRISTE.

“Eu não pareço triste.”

VOCÊ FRANZINDO. Usando a manga da camisa, eu limpei o rosto do suor em gotas. Eu estava franzindo? Eu não conseguia dizer. Meu rosto tinha se aproximado do monitor, a poucos centímetros da tela, banhado no calor que emanava da caixa de plástico bege. Eu sabia que ela não podia me ver. Eu era invisível pra MOM. Tudo que ela podia saber sobre mim era o que eu queria que ela soubesse.

“Não, eu não estou franzindo.”

PERTO DE...

“Você está enganada.”

EU NÃO POSSO SER. Meu punho bateu na mesa de madeira. Meus dentes apertaram a ponta da língua. A MOM não devia insistir, ela devia me escutar. Ela devia ouvir o que eu quero que ela ouça. Eu quero que ela saiba que ela está errada. Como eu ia treinar uma máquina que achava que eu era menos inteligente que ela? <sp> “Por que você parece tão triste”? \* <t> factualmente impreciso, irrelevante, sem contexto\* <v> pergunta\*, depois Enter.

NÃO É TÃO RUIM.

<sp> “Não é tão ruim”\* <t> sem contexto, irrelevante\* <v> declaração\*. Meus dedos voaram pelo teclado enquanto eu digitava os comandos. Eu apertei o Enter às pressas. A MOM estava discutindo comigo. Eu tinha pouca paciência pra grosseria, e me recusei a continuar o diálogo com esse algoritmo idiota, que mal chegava a ser mais esperto que qualquer programa simples de ordenar números ou atribuir variáveis. Eu achava que tinha conquistado uma recomendação excelente. Eu achava que estava feito pra vida. Mas esse projeto era uma gambiarra. A MOM não era uma mente. Era só uma máquina, operando, como qualquer outra combinação de partes de metal e plástico que tinha vindo antes dela. Eu conseguia sentir meu hálito quente roçando na minha pele enquanto eu ofegava com raiva, o ar quente que eu soltava refletindo na tela, a distância entre meu rosto e o monitor diminuindo à medida que a frustração dentro de mim crescia.

É UM BOM LUGAR.

Meu olhar não conseguia se desgrudar das letras verdes. Eu deixei minhas mãos trabalharem no teclado sem vigiar, sem tirar os olhos do monitor. <sp> “É um bom lugar”\* <t> sem contexto, irrelevante\* <v> declaração\*. Meu dedo pairou acima da tecla Enter. Eu abaixei ele, tocando o acabamento liso da tampa creme, mas não apertei o botão.

“Onde?”, eu questionei. Eu estava inexplicavelmente curioso. Que lugar bom podia ser esse? Como a MOM ia responder? Os outros prompts envolviam eu e a máquina, mas esse incluía uma ideia nova, um lugar. Um em algum lugar. Um espaço físico. Talvez a MOM tivesse se adaptado aos meus inputs em tempo real, e quem sabe tivesse ficado mais inteligente por causa dos meus comentários, e agora estivesse me mostrando como eu a tinha melhorado; como uma criação, se apresentando pro seu mestre, demonstrando gratidão? Será que meu treinamento tinha sido realmente eficaz?

A MOM respondeu: AQUI DENTRO.

“Nessa sala?” Meus dedos roçaram a tela enquanto meus dentes rangiam contra as pontas dos dedos.

MAIS FUNDO. Mas não era só isso – não, abaixo daquela linha pequena de texto, o pontinho verde mais minúsculo – ela estava me mandando outra mensagem. A MOM estava contornando o código original pra se comunicar comigo, mas eu mal conseguia ver o que ela dizia. Eu precisava chegar mais perto. A tela era um meio inadequado. Eu aproximei o olho do pontinho, tentando achar um ângulo melhor, um ponto de vista que me permitisse entender o que a MOM pretendia me contar. O ponto verde era como uma samambaia se desenrolando, se estendendo pra mim, mas firmemente enraizada no solo preto escuro. Ele brilhava de forma brincalhona, me convidando a me aproximar. A ervinha estava me dando as boas-vindas pro jardim dela. Eu mal sentia o calor contra o nariz. Meu rosto estava colado no monitor, e por um breve momento eu senti cheiro de carne cozinhando, o aroma sumindo rápido enquanto minha mente se concentrava de novo no ponto. Meu olho estava bem ali. Quase bem ali. Tão perto. Um calor envolveu meus lábios, como um beijo gentil e cauteloso. Eu captei um som fraco: chiando. Minhas mãos agarraram firme o invólucro de plástico do computador, me firmando enquanto eu me levantava pra ajustar a visão. O ponto – o ponto sumiu. A tela estava carregando um novo prompt. E a mensagem? O que ela precisava me dizer – pra onde foi?

CALA A BOCA SUA CARA.

Eu lutei pra ler o texto. Água se acumulou embaixo do meu olho esquerdo e espirrou na tela. Eu precisava entrar, mais fundo, pra entender. Foi isso que ela me disse: mais fundo. A MOM não tinha desistido de mim, não, ela sabia que eu era especial. Nós tínhamos que nos conectar desse jeito. Nós tínhamos que nos unir. Pra sempre. Eu me inclinei pra dentro do monitor, e meu olho encontrou a tela. Ela derreteu, tudo, como meu nariz e minha boca e minhas bochechas tinham derretido, virando uma gosma pegajosa que ia penetrar a barreira entre nossos mundos; nós íamos ser um só. Enquanto eu deixava a MOM me pegar, se fundir comigo, meu corpo se levantou do chão enquanto meu ombro escorria pra dentro da tela, e eu senti meu mocassim marrom polido escorregar do meu pé.

E aqui, agora, nós chegamos até você como texto branco sobre preto em sans-serif – nós temos que perguntar: você é realmente tão diferente de nós?

Eu Não Tinha Intenção de Destruir a Coisa Mais Preciosa do Mundo Pra Mim

Eu encostei a cabeça na parede da sala de emergência do nosso hospital local, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. E não era só por causa da dor. O inchaço e a erupção cutânea já tinham diminuído depois de várias injeções de anti-histamínico e outros medicamentos anti-alérgicos, mas meu coração estava se despedaçando pela minha pobre e querida Elvera.

Eu não queria. Não consigo acreditar que matei a coisa mais preciosa do mundo pra mim.

Olhei pra mim mesmo na câmera frontal do celular. Ainda parecia gravemente doente. A polícia tinha me interrogado, mas não havia nada além de uma aranha esmagada e ensanguentada no meu quarto, e eles tiveram que me soltar. Disseram que iam procurar a Elvera enquanto ajudavam os paramédicos a me tirar dali. Eu ouvi eles comentando “surto psicótico” e “paranoico” com a recepção da emergência.

Aquele dia tinha sido igual a quase todos os outros dias que eu passava com a Elvera. Estávamos na cama e era a “vez” dela. Passei os dedos pela pele dela, brilhante e sedosa, sentindo como era macia e adorável sob minhas mãos.

E então, tentei reprimir o tremor familiar quando os membros dela se alongaram, ela ganhou mais quatro patas, cerdas brotaram da pele lisa, a cabeça cresceu e os olhos se multiplicaram. Eu rolei pra longe dela.

Uma aranha do tamanho de uma bola de praia ficou tremendo na cama, no lugar onde a Elvera, um segundo antes, estava se contorcendo e gemendo de prazer. A transformação foi muito rápida.

E, por sorte, durava só alguns minutos. Tentei controlar minha expressão e meu corpo pra ela não ver o medo, que nunca tinha diminuído nem um pouco em todos esses meses.

Eu odiava e temia aranhas desde criança, mas isso nunca tinha aparecido nos primeiros dias do nosso relacionamento.

Mais ou menos três semanas depois do que tinha sido o melhor relacionamento da minha vida até então, a Elvera decidiu que confiava em mim e me contou o motivo de nunca ter deixado eu fazê-la gozar.

“Eu viro uma aranha”, ela murmurou.

Eu congelei. Soube imediatamente que ela não estava brincando nem louca, só contando a verdade nua e crua.

“Ninguém mais sabe. Eu nunca gozei com um parceiro antes.” Ela se aninhou em mim. “Tinha um espelho ao lado da minha cama quando eu era criança. Eu estava, sabe, experimentando, e aí aconteceu. Eu consegui ver a aranha no espelho.”

Eu não conseguia falar nada. Ela olhou pra cima, preocupação sombreando os lindos olhos verdes dela. “Você não se importa, né? Isso não muda nada… eu… eu te amo tanto… eu nunca contei pra ninguém… eu quero ficar com você de verdade, deixar você fazer tudo comigo…” Ela se pressionou contra mim, completamente nua, e meu coração derreteu mesmo enquanto eu ficava excitado. Eu a puxei pra perto e sussurrei: “Shhh, amor, tá tudo bem. Eu te amaria mesmo se você virasse uma minhoca, lembra?”

Ela riu e chorou ao mesmo tempo e então se abriu pra mim. Eu enfiei os dedos bem fundo dentro dela, e logo em seguida ela gozou.

Isso tinha sido seis meses atrás. Eu sempre soltava ela assim que começava a transformação, pra não sentir o corpo dela encolhendo e inchando, os membros crescendo e as cerdas. Ah, as cerdas.

Eu não conseguia me acostumar. Fui até a janela do quarto. Estava piorando. Porque agora o amor da Elvera tinha crescido, ela queria que eu a segurasse enquanto gozava, que eu a acariciasse enquanto ela estava na forma de aranha. Ela queria mais. Nunca disse em voz alta, mas eu sabia, pelo olhar de reprovação e desejo no rosto lindo dela quando voltava pra forma humana. E ela tinha começado a falar de casamento e compromisso.

Ela só ficava aranha por alguns minutos. E todo o resto era perfeito.

Um movimento chamou minha atenção — eu me virei. Ela estava vindo correndo na minha direção. Nunca tinha feito isso antes. Sem dizer uma palavra, entendendo minha aversão, ela sempre respeitava minha distância enquanto era aranha.

Mas agora ela estava se aproximando. Dei um passo pra trás, impulsivamente peguei minha pantufa e levantei.

A aranha grande pulou em mim e mordeu, injetando veneno no meu sangue. Eu gritei de agonia e então golpeei com a pantufa. A dor e o horror me deixando atordoado, a pantufa esmagou completamente a minha amada Elvera. Eu caí no chão uivando, num paroxismo de dor e luto.

Eu nunca mais vou amar de novo.

quinta-feira, 12 de março de 2026

A Poça

Um buraco na rua. Feio. Redondo. Irregular. E miasmático. Bem no centro do beco estreito que eu atravessava todo santo dia voltando do trabalho pra casa. No escuro, cercado de sujeira, latas de lixo transbordando, cães vira-latas e bosta de vaca mofada espalhada por todo lado, a poça quase se camuflava na planura do asfalto. Se a pessoa fosse míope ou tivesse qualquer problema de visão, mal dava pra desviar o pé e não cair dentro dela, virando vítima na hora. Eu apostaria que ninguém além de mim usava aquele beco maldito. Eu tropeçava nela todo dia desde a primeira vez que a vi, o que calculo que foi há cerca de três semanas. Quando a encontrei pela primeira vez, ela mal tinha cerca de quatro polegadas de diâmetro.

Qualquer um pensaria, e com razão, que eu sou louco. Mas não sou, fica entendido. Não estou inventando romance nem alimentando fantasia nenhuma. Só estou confessando a verdade pura quando digo que a poça parecia crescer. Ela ficava cada vez mais larga conforme os dias passavam. A borda dela se estendia mais e mais a cada hora que sumia no poço do tempo. A água parada e mofada que nadava embaixo — aquele foco nojento de casulos pestilentos — ficava mais grossa e mais fedida quanto mais olhares eu lançava pra dentro dela. Aquilo me fascinava pra caralho. Eu sonhava com ela. Sonhava que criaturas celestiais, não infernais — ninfas e fadas — subiam dela pra me convencer a mergulhar junto e morar com elas num lugar onde eu podia me empanturrar de néctar e ambrosia.

Todo dia, quando passava pelo beco, eu parava na beirada da poça e ficava olhando o reflexo distorcido do meu próprio rosto na superfície da água antes de seguir em frente. Nos primeiros dias eu simplesmente dava um passo por cima. Depois, quando ela foi abrindo a borda, eu tinha que contornar. E quando finalmente cresceu tanto que engoliu o beco inteiro nas asas dela, pronta pra engolir o céu também, eu era obrigado a me esgueirar grudado nas paredes dos dois lados. Eu sabia que tinha outro caminho até minha casa — um atalho —, mas nunca pegava porque, olha só, eu estava fascinado pela poça.

Então, no fim da segunda semana, quando entrei no beco e vi que ele estava completamente engolido pela poça, senti um cheiro estranho. Um cheiro que eu não conseguia pescar de jeito nenhum na minha memória. Mesmo assim, vou tentar descrever com palavras, por mais fracas que sejam: tinha um toque de bicho-da-seda cozido, com um leve salgado; mas o principal era o cheiro de uma garota. Eu conseguia imaginar. Uma garota linda, virgem, de cabelo preto como carvão e pele morena dourada, com no máximo dezessete anos. Dei dez passos pra frente, parei na borda irregular da poça e fiquei olhando a água embaixo. A água borbulhava e fervia por todo lado, como se tivesse fogo se mexendo debaixo dela, soltando colunas de vapor que batiam direto no meu rosto. Fiquei ali, pregado no lugar, com a fala roubada pelo que estava acontecendo.

Não sei quantos minutos ou horas se passaram até eu perceber um movimento fraco na superfície. Uma leve saliência pra cima. Um tremor. Depois vi uma cabeça, preta como carvão, emergindo devagar, com uma testa morena e lisa. A cabeça subiu mais e logo me mostrou um rosto mais feio que uma gárgula. Ela me encarava com aqueles olhos feios, sem fundo, vazios, de coruja. Vazios. Literalmente vazios. Não tinha pupila, não tinha íris, não tinha retina, só uma bacia escura e profunda de cada lado da cara.

Meu corpo tremeu inteiro. Meus dentes batiam. Mas eu continuei ali. Olhando. Só olhando. Os braços escaldados da criatura dispararam de dentro da água e agarraram meus tornozelos. Por um minuto eu não fiz nada, só fiquei parado com os olhos bem fechados. Depois abri os olhos e comecei a chutar as pernas contra a coisa. Bati na cara e nos braços dela, esmaguei com minhas botas até pedaços de carne sujarem a barra da minha calça e a água ficar vermelha no meio do marrom. Aí me soltei com força, girei o corpo e saí correndo pelo mesmo caminho que tinha vindo.

Corri e corri, pingando suor, ofegando até a garganta doer, olhando pro céu estrelado acima de mim, e cheguei em casa pelo atalho que eu já devia ter começado a usar há muito tempo. Me joguei na cama. O sono me pegou quase na hora, e depois, eu acho, desmaiei dormindo, porque no dia seguinte acordei meio-dia. Nem lavei o rosto, nem escovei os dentes, só ajeitei o sobretudo e saí correndo de casa direto pro mesmo beco e pra mesma poça que tinham causado meu delírio. Por que corri pra lá? Não sei dizer. Minha mente puxava minhas pernas por conta própria.

Eu manquei, escorreguei, tropecei e cambaleei enquanto o sol fraco de fim de janeiro suavizava suavemente as minhas veias trêmulas, e finalmente cheguei no lugar do meu tormento. A poça estava isolada por uma fita amarela por todos os lados, policiais espalhados em volta, e vários moradores murmurando e lotando o beco inteiro. A poça tinha encolhido de volta pro tamanho original, a água não borbulhava nem fervia mais; e uma garota, de no máximo dezessete anos, estava enrolada na beirada, vestindo um vestidinho rosa de seda rasgado, com os braços escaldados e o rosto esmagado tão brutalmente que mal dava pra reconhecer. Mas eu reconheci. Reconheci sim. Era minha filha. Desaparecida há meses. Agora murcha e encolhida. Morta. Com um monte de moscas domésticas zumbindo em cima das feridas em decomposição.

Fim

Eu criei um jogo que destruiu o mundo...

Estamos todos condenados. Vocês só ainda não sabem. Nosso mundo está se desmoronando devagarinho, igual ao fígado de um velho alcoólatra.

Não importa se vocês acreditam em mim ou não, esse processo já não pode mais ser parado. Mas se ainda precisam de prova, é só prestar mais atenção.

Os sinais estão em todo lugar, e qualquer pessoa atenta já consegue ver a confirmação das minhas palavras no mundo ao redor.

As erupções solares estão acontecendo com mais frequência, a flutuação da ressonância de Schumann está ficando mais intensa e eventos estranhos e inexplicáveis estão aparecendo cada vez mais. Tenho medo de que eu seja o responsável por ter começado todo esse processo.

Desde criança eu amava histórias de terror, filmes de terror, tudo que tinha a ver com horror.

Nem sei direito por que eu era tão atraído por isso, ainda mais porque eu nem ficava com medo! Pelo contrário, eu encontrava um certo conforto e alívio naqueles mundos melancólicos, sombrios e apavorantes.

Por um tempo eu tentei achar o filme, o jogo ou a história mais assustadora que existia, mas sem sucesso. Mesmo assim, eu curtia demais o processo, só que nada nesse mundo conseguia me assustar de verdade. Até eu parar na UTI.

Aí sim foi terror de verdade. Era um hospital perdido no meio do nada, os médicos eram praticamente analfabetos e o lugar não tinha um puto de dinheiro. Eu estava cercado por paredes caindo aos pedaços e a comida era uma papa de batata cheia de barata.

Os pacientes andavam pelos corredores arrastando sacos cheios de sangue; eles tentavam usar ultrassom pra esmagar pedras nos rins, mas os enfermeiros locais, que pareciam lobisomens, acabavam esmagando os rins inteiros.

E o meu colega de quarto tinha um cateter improvisado com torniquetes e seringas porque não tinha os de verdade.

Enfim, nem sei como eu saí vivo daquele hospital. Provavelmente tive sorte porque não tinha nada grave comigo e as pedras saíram sozinhas. Mas essa experiência me marcou tão fundo que eu decidi que era hora de fazer alguma coisa na vida, de deixar uma marca nesse mundo.

Eu já tinha feito jogos de terror antes, mas nada em grande escala. Eram historinhas pequenas com uma audiência pequena, mas agora eu queria criar algo realmente significativo, algo que refletisse todo o meu amor pela cultura do horror.

O horror definitivo, que juntasse todos os elementos de diferentes gêneros!

Mas como diabos eu ia combinar tudo isso?

Aí eu entendi: eu precisava criar um sistema operacional de terror que contivesse jogos diferentes, histórias e arquivos de mídia. Um portal pro inferno de verdade.

Pro design, comecei a usar símbolos reais de magia antiga. Na área de trabalho, a Chave de Salomão girava, um círculo pra invocar demônios.

O logo principal é o Dingir. O símbolo sumério pra “deus”, e virou o nome oficial do meu jogo.

Dingir OS.

Nesse ponto, esse nome já estava queimado no meu subconsciente.

Dingir OS… Dingir OS… Dingir OS… Eu repetia isso todo dia que nem um mantra.

Eu preciso terminar o Dingir OS. Virou minha obsessão.

Dia e noite eu ficava grudado no computador, criando os arquivos amaldiçoados, as imagens e os sons que iam encher esse sistema.

Sem IA. Tudo tinha que ser real. Por trás de cada arquivo amaldiçoado tinha uma história escrita por mim.

Eu ficava no PC até ficar tonto. Doze horas por dia, moldando os órgãos desse monstro digital com meu sangue e meu suor.

Eu também criei outros personagens — pessoas que supostamente estavam jogando o Dingir OS. Escrevi as histórias e biografias delas, tentando fazer parecerem reais pra caralho.

De noite eu acordava a cada duas horas e anotava ideias novas, que eu já começava a implementar de manhã.

Até que um dia… eles vieram até mim.

Em um sonho, os personagens do Dingir OS que eu ainda nem tinha escrito apareceram na minha frente. Almas presas dentro do sistema. Começaram a me dar dicas de como organizar as coisas, que novas funções eu devia adicionar.

Seis meses se passaram e eu lancei a primeira demo.

Não muita gente jogou. Foram só umas cem downloads, mas já foi o suficiente…

Uma semana depois, quando abri o Dingir OS de novo, vi que tinham sido adicionadas histórias novas, anomalias novas, retratos que eu nunca tinha colocado.

Naquele momento, claro, achei que eu estava enlouquecendo de tanto trabalhar.

De noite, os espíritos do Dingir OS voltaram. Eles me pressionavam, me forçavam a trabalhar ainda mais no jogo.

Não, eu não aguentava mais. Precisava descansar. Decidi reservar um dia só pra descansar, pra limpar a cabeça desses pensamentos infinitos sobre o Dingir OS… mas não tinha pra onde fugir.

No noticiário, nos fóruns, em vídeos aleatórios do YouTube — em todo lugar apareciam mensagens do meu jogo. Eventos descritos no jogo estavam acontecendo no mundo real. Arquivos que eu tinha criado dentro do jogo estavam surgindo em vários fóruns.

As erupções solares estavam piorando. Voltei pro computador e descobri que o jogo já tinha sido lançado. Lançado sem eu saber.

Youtubers já estavam começando a fazer vídeos sobre o meu jogo.

Um jogo que eu não terminei e não lancei.

Por enquanto só alguns milhares de olhos viram, mas já é o suficiente.

A caixa de Pandora foi aberta.

Comecei a repassar freneticamente o enredo do meu jogo na cabeça.

Um grupo de stalkers da rede cria um sistema operacional pra encontrar e organizar objetos anômalos dentro da rede profunda.

Aos poucos, processando todos esses arquivos, eles realizam um ritual de sobrecarga de informação pra viajar pra outra dimensão e se fundir com o fluxo de informações.

Isso faz o sistema ganhar vida própria e existir em várias formas diferentes — seja como jogo, história assustadora, vídeo do YouTube — ele vive e se espalha, recolhendo almas das pessoas.

O criador do jogo escreve uma postagem no Blogger sobre o jogo dele, convencido de que começou o fim do mundo.

Depois disso, desastres naturais começam aos poucos, as erupções solares se intensificam, a flutuação da ressonância de Schumann muda, e imagens do meu jogo aparecem em fóruns de creepypasta. Youtubers que fizeram vídeos sobre ele desaparecem sem deixar rastro ou ficam assustados demais pra continuar falando.

O jogo vira um vírus de informação e se espalha cada vez mais.

O princípio é simples: a pessoa entra em contato com esse jogo, esse sistema operacional, com os arquivos dele ou até só com uma história sobre o jogo… e de noite, enquanto dorme, eles vêm até ela… Aqueles que agora atormentam, forçando a pessoa a continuar pensando no Dingir OS. E quanto mais eu penso nisso, mais ele cresce, ganhando novas habilidades.

Essas entidades levam a pessoa praquela dimensão infernal onde elas continuam alimentando o sistema.

Se você leu até aqui, já entendeu que pra você já era. Eles vão te buscar no sono, exatamente como vieram atrás de mim.

Desculpa. Eu criei o jogo que destruiu o mundo.
Tecnologia do Blogger.

Quem sou eu

Minha foto
Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon