terça-feira, 17 de março de 2026

O Cachorro Morre no Final

O cachorro morre no final dessa história, e eu odeio chamar aquela coisa de cachorro, mas era o que era. Um cachorro. Um bom menino. Eu o encontrei numa caixa do lado da lixeira onde eu estava catando trem naquele dia. Não tinha notado a caixa antes, mas quando saí com os braços cheios de comida "vencida" que ainda prestava, ouvi um latidinho fraco lá embaixo. Olhei pra baixo e vi o bichinho. Abanando o rabo com a língua pra fora, ofegante. Não era exatamente um filhote, era um vira-lata grandão, e ele foi logo esfregando a cabeça na minha mão.

Bom, eu não tava nem um pouco a fim de assumir um bicho inteiro quando mal conseguia me virar sozinho, mas ele me seguiu até em casa. Com a língua ainda pra fora e o rabo ainda abanando como se me conhecesse a vida toda. Quando chegamos no meu barraco quase em ruínas, ele disparou por entre as minhas pernas assim que a porta abriu. Farejou tudo e soltou aquele barulhinho suave e abafado. Não era exatamente um ofego normal, parecia mais com uma risadinha. Dava pra ver que ele tinha passado por muita coisa, com a pelagem arrepiada na maior parte do corpo e com a orelha esquerda quase toda destruída, aí eu joguei na conta de algum dano no focinho. Sei lá. Animais não eram exatamente permitidos nos apartamentos, mas nosso ganancioso senhor feudal não enchia o saco desde que o bicho ficasse quieto e você catasse a merda. Quando entrei atrás da coisa, tive que chutar um monte de lixo pra escanteio. Caixinhas de comida pra viagem, latas de cerveja, frascos de remédio, tigelas de papel, cara, minha vida é uma bagunça. Mas o cachorro não pareceu se importar, subiu de imediato no meu sofá e se instalou como se fosse a casa dele. Lembro de dar um sorriso torto e falar "Bom menino". Isso mandou o rabo dele numa frenesi de felicidade.

Ele era um cachorro tão bom, até hoje me dá aquele aperto no peito só de pensar e eu odeio isso. Mas ele era o mais bom dos meninos. Porra, isso eu odeio ainda mais. Mas não tem como minha cabeça enquadrar o que aquilo era de outro jeito. Era um Bom Menino. Um Bom Menino assustador, que te deixava ansioso até a medula. Quero acreditar que ele já foi um cachorro normal algum dia, e que alguém simplesmente tomou o corpo dele ou algo assim. Mas sempre que eu olhava nos olhos dele — olhos que definitivamente não pertenciam a nenhum cachorro — eu tinha a sensação de que ele era assim fazia décadas. Talvez mais, mas deixa eu voltar à história agora.

Ele me acordava lambendo a minha boca com aquele bafo horroroso enchendo meu nariz, bem mais cedo do que eu era acostumado. Só pra eu poder deixá-lo sair pra mijar. Eu ficava sentado nos degraus do prédio vendo aquela coisa farejar o pequeno pedaço de grama alta enquanto tomava um café irlandês horrível. Não importava o quão horrível fosse tudo ao redor, ele ficava contente. Contente porque era dele, era assim que ele via, tudo era dele. Agia e se movia como um cachorro normal, na maior parte do tempo. O primeiro sinal de que algo tava muito errado foi quando ele mordeu uma mina que eu tava afim na época. Ela já tinha vindo antes, não se importava muito com a bagunça, e pareceu animada em ver o cachorro. Ela foi acariciá-lo e ele desencaixou a mandíbula, ou a boca dele se abriu na vertical em vez de na horizontal, foi difícil dizer de onde eu tava. O maldito vira-lata arrancou dois dos dedos dela. Levei ela pro pronto-socorro. Ela nunca mais quis me ver.

Foi aí que as coisas realmente começaram a desandar. Cheguei em casa e encontrei o bicho do inferno tendo rasgado o saco de ração que eu tinha tão generosamente "emprestado". Joguei os restos na geladeira e fui dormir, cansado demais, me dizendo que limparia tudo de manhã. Ele ficou cutucando minha mão naquela noite, choramingando por algum motivo. Mal acordei, só registrei meio que no automático o narizinho frio dele esfregando nos meus dedos.

— Vai dormir — consegui resmungar, empurrando levemente a cabeça dele antes de virar de lado. Naquele dia ele ficou bem, talvez um pouco murcho, provavelmente porque não podia se empanturrar de ração de novo, e eu o levei pra passear. Ele latiu pra todo mundo que a gente passou, eu não aguentei. O passeio durou só tempo suficiente pra ele fazer as necessidades e eu o arrastei de volta pra casa. Adormeci olhando pra abrigos de animais no celular. Fui arrancado do sono de um jeito nada agradável mais tarde naquela noite. Barulho alto vindo da cozinha. Cara, ele tá na geladeira de novo, pensei, desesperado por aquela ração. Quando cheguei na entrada da cozinha fui recebido pela visão daquela coisa de pé com as patas pra trás, curvada à luz da geladeira aberta, enfiando ração pela goela escorrendo. Que porra mais eu poderia fazer além de gritar feito um louco? Doía olhar pra aquilo, tipo aquela dorzinha rápida que você sente quando pisca depois de ficar encarando o computador por tempo demais. Ele inclinou a cabeça na minha direção, me observando com olhos vazios até meu grito se transformar num engasgo rouco.

— Vai. Dor. Mir. — A voz não saiu exatamente da coisa, mas dava pra saber que era ela falando. Mesmo que fosse a minha própria voz que ela estava usando. Eu estava aterrorizado, eu estava impotente. Voltei pro quarto e deitei, na esperança de lembrar daquela noite como nada mais que um pesadelo ruim.

Ele me acordou na manhã seguinte lambendo meu rosto inteiro de novo. Com bafo de ração pesado no hálito. Comecei aquele dia batendo na porta do meu vizinho mais próximo com a intenção de me desculpar pelos meus gritos da noite anterior. Não gosto muito nem vejo muito os meus vizinhos nesse prédio, mas esse cara era gente boa e eu não queria que ele pensasse que eu tinha morrido ou coisa assim. Achei estranho ninguém ter vindo falar nada, nem mesmo o proprietário que uma vez me deu uma bronca por estar rindo alto demais. Quando conversamos, meu vizinho disse que não tinha ouvido nada na noite anterior. Então devia ter sido um pesadelo, né?

Mesmo assim, eu queria esgotar todas as possibilidades. Tentei pesquisar coisas tipo possessão em cachorro, mas ficava aparecendo só informação sobre alguma história da internet chamada "Long Dog" ou algo do tipo. Nada útil. O cachorro não reagiu a nada de exorcismo. Ele bebeu água benta de lambida, achou que minha cruz era um osso de brinquedo, não se abalou com nada. Mas eu via como ele ficava me espreitando pelos cantos ou de baixo da minha cama. Aqueles olhos malditos, aquela risadinha idiota, eu sabia que isso não era mais um cachorro normal. Sabia que precisava fazer alguma coisa antes que ele me matasse.

Esperei ele tirar um cochilo. Com a faca de cozinha na mão. A coisa estava roncando quando me aproximei com cuidado, passando por tudo na minha cabeça uma vez atrás da outra. Precisava ter certeza de que era isso que eu queria. Quer dizer, quem esfaqueia cachorro? Eu não queria esfaquear o meu cachorro, mas não — era exatamente isso que ele queria que eu pensasse. Ele queria que eu achasse que era um bom menino, um cachorrinho doce que raramente latia dentro de casa e só mexia na própria ração. Minha mão tremia, meu corpo querendo largar a arma pra eu cair de joelhos e dar uns afagos nele. Eu não podia deixar aquilo ganhar.

A lâmina afundou entre as omoplatas dele. Ele não acordou de imediato, e as costas dele não pararam de subir e descer com respirações tranquilas. Fiquei paralisado, me xingando mentalmente por ter machucado um animal indefeso, até que ele abriu os olhos. Minha mão soltou o cabo da faca imediatamente enquanto eu recuava tropeçando, meus medos se confirmando enquanto ele se levantava. Sua cabeça girou pra trás pra puxar a faca do próprio corpo, cada giro e inclinação arrancando um estalo úmido dos ossos, e então ele largou a lâmina aos meus pés.

Imediatamente chutei a faca pra longe enquanto o cachorro se espreguiçava no lugar dele no sofá. Se moveu quase como uma sanfona com a pele toda se alongando antes de estalar de volta no lugar. Meu corpo tremia enquanto ele trotava ao meu redor pra lamber minha bochecha, com a língua chegando até o meu ouvido, antes de ir até a porta. As costas estralaram quando ele se levantou pra desbloquear e girar a maçaneta. Na luz difusa do corredor ele olhou pra trás pra mim. Eu queria que aquilo simplesmente acabasse, queria que aquela porra simplesmente fosse embora. E foi. Ele saiu do meu apartamento, mas não sem antes me dizer duas últimas e repugnantes palavras de despedida: "Mau Menino."

Naquela manhã meu vizinho decente veio dar os pêsames. Perguntei por quê e ele me contou que viu meu cachorro atropelado por um carro.

— Do que você tá falando? — perguntei, minha cabeça incapaz de processar completamente o que ele estava me dizendo.

— Seu cachorro, cara, tava estirado no meio da rua quando fui jogar o lixo fora. Cena horrorosa demais. Você precisa ter mais cuidado com as portas, esses bichinhos disparam assim que têm chance. Que pena também. Ele parecia um menino tão bom. — Ele me desejou um dia melhor antes de voltar pro apartamento dele. Corri pra fora pra ver com meus próprios olhos, mas só encontrei uma poça de sangue seco. Qualquer corpo, se é que tinha realmente existido um, não estava em lugar nenhum.

Já faz algumas semanas. Juro que tenho ouvido latidos no meio da madrugada, mas não sei de onde estão vindo. No fim ficou grande demais e decidi quebrar o contrato e ficar na casa de um amigo até juntar dinheiro suficiente pra conseguir um apartamento melhor em algum lugar bem longe daqui. Meu vizinho me pegou no corredor enquanto eu estava mudando minhas coisas pro carro do meu colega. Ele tinha um cachorro no colo, tipo um Lulu da Pomerânia ou coisa assim. Jogamos conversa fora. Ele me contou que encontrou o cachorro atrás do prédio. Ficou com pena do vira-lata e trouxe pra dentro.

— Ele deve ter brigado ou algo assim — disse ele enquanto acariciava o bicho — a orelha esquerda dele sumiu e tem um corte feio nas costas.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Cartas

As coisas não têm sido nada fáceis ultimamente. Gastei uma grana absurda num diploma universitário que me levou a um beco sem saída — um trampo de salário mínimo e uma montanha de dívida estudantil — e agora estou morando num apartamento uma merda com um senhorio que todo mundo odeia. Mas minha mãe nunca criou um covarde, então eu persisto, na esperança de que as coisas melhorem. Ela era a única que acreditava que eu ia conseguir, que tudo ia melhorar, e até hoje ela nunca me levou pelo caminho errado.

O dia começou igual a qualquer outro — saí da cama de mau humor, vesti o uniforme do McDonald's e comi uma tigela refrescante de Cheerios puro (o café da manhã dos campeões, sem dúvida), antes de ir pro trabalho. Não tem muita coisa pra contar sobre o dia de serviço: virei alguns hambúrgueres, peguei alguns pedidos e aguentei uns clientes chatos. Mas eu vi uma cliente grossa tropeçar e derramar a bebida dela no estacionamento. Isso me arrancou um sorriso. Depois de um dia exaustivo e sem graça, voltei pro meu apartamento. Quando entrei, vi um pote de rolinhos de canela com um pedacinho de papel escrito "Da Mamãe" com um coraçãozinho desenhado. Ela tinha uma cópia da minha chave, então deve ter passado aqui enquanto eu estava fora. Eu estava destruído e morrendo de fome, então dei uma mordida, sentindo aquele calor de casa e o amor da minha mãe. Me senti um menino de novo, saboreando um docinho e sentindo o abraço dela, e não me envergonho de admitir que chorei ali mesmo, na hora.

Terminei os rolinhos e lavei o pote. De qualquer forma, eu ia visitá-la ainda essa semana, então ia devolver lá. Dei uma última olhada no bilhetinho da minha mãe quando percebi que tinha uma carta do lado. Estranho — devo ter passado batido antes. Peguei e examinei. Não havia nenhum tipo de escrita do lado de fora. Sem "Da Mamãe", sem "Para o Trevion" ou qualquer coisa assim, nem o coraçãozinho que a minha mãe sempre desenha em toda carta que escreve. Talvez eu estivesse exagerando — talvez ela estivesse com pressa.

Resolvi abrir, curioso sobre qual frase inspiracional brega ela tinha escrito dessa vez, mas não havia nenhum bilhete dentro — só uma foto. Uma foto bem estranha. Parecia um porão escuro, iluminado apenas por uma velha lâmpada balançando no teto. No centro da foto havia uma porta de madeira. A imagem era um pouco perturbadora, e meio esquisita pra minha mãe mandar, ainda mais porque o porão dela não tem nada a ver com aquilo. Mas eu estava cansado demais pra pensar nisso, então fui me jogar na cama na esperança de dormir por uma eternidade.

Na manhã seguinte, acordei e saí da cama, seguindo minha rotina normal, até ver outra carta fechada em cima da minha mesa de jantar. A de ontem eu tinha deixado fechada em cima do balcão ao lado do micro-ondas, mas ela tinha sumido. Procurei por todo lado, mas não achei. Olhei de volta pra mesa, fitando a nova carta com curiosidade e uma pontada de pavor. Me aproximei com hesitação, peguei a carta e virei.

"Fique calmo. Deus te aguarda na porta." estava escrito na frente da carta, em letra caprichada. Isso era uma ameaça? Alguém tinha arrombado minha casa e deixado isso aqui? Liguei pro trabalho, expliquei o básico — que eu suspeitava que alguém tinha entrado na minha casa e que não ia aparecer. Não achei necessário mencionar a carta. Minha gerente, coitada, foi muito compreensiva e me deu o dia de folga. Chamei a polícia imediatamente e comecei a vasculhar tudo, tentando achar algum sinal de arrombamento ou se alguém ainda estava ali, mas minha cabeça ficava voltando à curiosidade sobre o que estava dentro da carta. Depois de confirmar que eu estava seguro, por enquanto, meus olhos vagaram pra mesa. Eu sabia que provavelmente não era boa ideia, mas a abri. Em retrospecto, foi uma besteira enorme, mas eu não consegui me controlar. Havia outra foto — dessa vez, a mesma porta do porão escuro, escancarada, revelando apenas escuridão. Fiquei ali sentado encarando a carta, tentando entender tudo aquilo, até a polícia chegar.

Dei meu depoimento enquanto eles vasculhavam a casa. Esperava que encontrassem alguma coisa — qualquer coisa — que pudesse identificar quem teria arrombado o apartamento. Um milhão de perguntas passavam pela minha cabeça enquanto eles investigavam. Quem teria feito isso? Por que eu especificamente? Será que ofendi alguém de alguma forma? Um policial se aproximou e disse que ou o invasor conseguiu esconder qualquer evidência de arrombamento de forma perfeita, ou simplesmente ninguém tinha entrado. O jeito que ele falou parecia que estava irritado comigo por ter desperdiçado o tempo dele. Eles foram embora e eu me joguei no sofá, tentando entender toda essa situação de merda.

A melhor coisa a fazer, pensei, era ligar pra minha mãe. Não sabia o que esperava que ela fizesse, mas achei que ouvir a voz dela me ajudaria a me acalmar um pouco. Com as mãos tremendo, peguei o celular e fui descendo até as informações de contato dela. Não demorou muito — não tinha muitos contatos pra começar. Coloquei o telefone no ouvido e fiquei esperando ela atender. O telefone foi chamando até cair na caixa postal. Não era lá muito surpreendente — minha mãe quase sempre deixava o celular no silencioso porque ele "a distraía de Vampire Diaries" ou alguma outra série dramática vagabunda. Ia tentar de novo quando recebi uma mensagem do número dela. Estranho — ela nunca foi de mandar mensagem, só ligava e escrevia cartas.

Abri o aplicativo de mensagens e li o texto da minha mãe.

"E qualquer um cujo nome não estava escrito no Livro da Vida foi lançado no Lago de Fogo."

Antes mesmo de conseguir processar o que aquilo significava, meus olhos arregalaram de horror e um som sufocado escapou da minha garganta quando recebi uma mensagem em seguida. Era uma foto da minha mãe, amarrada a uma mesa coberta de cortes e hematomas, uma lareira enorme queimando forte atrás dela.

Meu rosto ficou pálido e minha respiração acelerou. Eu precisava fazer alguma coisa — precisava chamar a polícia.

Ouvi uma batida na porta e levei um susto. Corri até a porta, na esperança de que fosse minha mãe. Pelo amor de Deus, que fosse ela. Abri a porta rapidamente e não vi nada. Olhei pros dois lados do corredor, mas não havia ninguém. Só havia mais uma carta no chão. Peguei com hesitação e voltei depressa pra dentro, indo pro sofá. Abri na hora, tirando uma carta manuscrita seguida de uma foto. A foto era do porão escuro de novo, mas dessa vez do chão num canto, em vez das escadas como nas fotos anteriores. Tomei um choque quando vi que era… eu na foto. Eu estava no alto das escadas descendo, claramente sem perceber quem estava tirando a foto. Mas aquilo não fazia sentido algum, já que o único porão onde eu tinha estado era o do próprio prédio, pra lavar roupa, alguns dias atrás.

Foi aí que caiu a ficha como um soco no estômago. Quem tinha sequestrado minha mãe estava aqui, e já estava aqui fazia um tempo. Não me dei nem um segundo pra pensar — saí do quarto correndo, peguei meu taco de beisebol velho e desci direto pro porão. Recebi alguns olhares estranhos no caminho, mas não importava. Minha mãe estava em perigo e eu precisava ajudá-la.

Empurrei a porta com força, encarando o abismo escuro lá embaixo. Toquei no interruptor de luz, mas nada aconteceu. Talvez ele soubesse que eu ia aparecer e tivesse cortado a energia do porão. Liguei a lanterna do celular e desci com cuidado, o taco firme na mão, chamando pela minha mãe.

Cheguei ao último degrau e olhei em volta com a lanterna. Tudo parecia normal, igual às fotos. Algumas máquinas de lavar, uns canos velhos e a porta. Eu sempre achei que fosse um depósito velho dos funcionários de limpeza, mas agora sabia que era algo muito mais sinistro. Corri até a porta e chutei pra abrir.

— Mãe! Você está aí? — gritei no quarto escuro, jogando a luz pra dentro. Era muito maior do que eu tinha imaginado, grande demais pra ser só um depósito de limpeza.

Entrei devagar, o assoalho rangendo levemente a cada passo. Vi a lareira apagada da foto da mensagem. Parecia bem maior do que na foto — como se uma pessoa inteira coubesse ali dentro. Quando me aproximei, vi que quem fez tudo aquilo tinha feito exatamente isso. Havia ossos cobertos de cinzas espalhados por toda a lareira. Muitos braços e pernas, costelas, e o mais arrepiante de tudo: vários crânios humanos, todos enfileirados com capricho. Me estremeci só de imaginar um deles sendo minha mãe. Expulsei o pensamento da cabeça. Ela tinha que estar bem — precisava estar.

Me levantei e caminhei mais fundo naquele cômodo comprido. Outro detalhe que me perturbou foi o quanto tudo estava organizado. Tudo no lugar certo, e não havia uma única teia de aranha em nenhum canto. Vi a mesa onde minha mãe estava presa, mas ela não estava mais lá.

— Merda, merda — murmurei pra mim mesmo enquanto me aproximava da mesa, tentando achar alguma pista ou alguma coisa que me ajudasse a entender o que tinha acontecido ou pra onde ela poderia ter ido. Mas nada — nem uma única gota de sangue em lugar nenhum.

Recuei da mesa, respirando pesado, tentando pensar no que fazer, até ouvir um ronco úmido e baixo mais ao fundo do cômodo. Joguei a lanterna rapidamente pro final do cômodo e vi a cena mais apavorante que já presenciei na vida. Até hoje me mantém acordado à noite enquanto escrevo isso, e acho que nunca vai me largar.

"Não me deixes ser crucificada como meu salvador" estava escrito num papel pregado num cadáver. Minha mãe estava pregada a uma cruz invertida com uma estrela cortada no estômago, sangue escorrendo por ela e cobrindo seu rosto inchado e cheio de hematomas.

Não consegui olhar mais. Saí correndo e não parei até chegar de volta no meu quarto. Bati a porta e dei a chave. Me apoiei contra a porta, respirando pesado e irregular, soluçando e caindo de joelhos.

— Oh… meu Deus… me ajuda… — murmurei entre soluços pesados. Quando me recompus o suficiente, peguei o celular e chamei a polícia.

Eles chegaram logo em seguida e foram direto pro porão. Isolaram o cômodo e examinaram tudo por um tempo que pareceu uma eternidade. De vez em quando eu via alguns policiais entrando e saindo do cômodo enquanto eu ficava do lado de fora. Toda vez que saíam, dava pra ver que eles também estavam profundamente perturbados com o que tinham visto.

Tiraram minha mãe numa maca, mas ela já estava morta fazia tempo. Juntei quase todo o meu dinheiro pra cremá-la e coloquei o vaso com as cinzas na prateleira da minha cabeceira.

Já se passaram 7 meses desde o ocorrido. Me joguei de cabeça no trabalho, pegando todo turno que aparece. Juntei dinheiro pra me mudar pra um prédio diferente, a alguns quarteirões dali — simplesmente não conseguia ficar no mesmo lugar.

Um dia voltei do trabalho e me joguei no sofá, decidindo escrever essa história toda, só pra tirar esse peso do peito. Dizem que é terapêutico, então resolvi tentar. Estava na metade quando ouvi uma batida na porta. Olhei pelo olho mágico e não vi nada, então abri a porta e vi uma carta no chão.

Eu devia ter mais juízo, devia ter deixado pra lá e me mudado de novo, mas não fiz isso. Fiquei tanto tempo sem nenhum tipo de incidente que baixei a guarda. Peguei a carta e fechei a porta.

No envelope estava escrito "Para o Trevion". Isso parecia normal, mas o que me desestabilizou foi que a caligrafia era idêntica à da minha mãe — letra por letra. Abri a carta, a curiosidade me consumindo enquanto rasgava o lacre e tirava duas fotos. Uma delas era de uma cruz de madeira com uma placa escrita "Iesus Nazarenus, Rex Iudaeorum". Virar a foto revelava mais um texto, simplesmente: "Para você". A segunda foto era da minha porta da frente, como se tivesse sido tirada a alguns centímetros dela, com o número do meu apartamento enquadrado na imagem.

Tranquei as portas e chamei a polícia, mas não sei se vai adiantar. Se alguém vir isso e estiver perto da Lake Shore Drive em Chicago, me salva, por favor. Meu número de apartamento é 137. Não tenho muito tempo. Por favor.

Alerta de Neblina: Dirija com Cautela

A densa neblina que chegou rolando do mar parecia ter vida própria. Ela redemoinhou e se deslocou a cada passo que eu dei em direção ao meu carro, abrindo espaço ao redor do meu corpo enquanto eu caminhava. Ia ser uma manhã puxada. No geral, eu amava morar perto da costa. O ar salgado, os frutos do mar frescos, as belas vistas do oceano eram coisas das quais eu tentava nunca me esquecer de ser grato. Eu nem ligava para os turistas. Pra mim, o grande problema era o trajeto matinal. Especialmente em dias como hoje. Toda manhã eu precisava cruzar a Ponte Memorial que atravessa a Baía de Chesapeake, e eu odiava aquilo.

Com quase seis quilômetros e meio de extensão, a coisa era grande demais. Ficava alta demais acima da água e as suas grades de proteção eram baixas demais — cada rajada de vento me deixava arrepiado quando eu estava atravessando. Eu podia até amar a água, mas não tinha nenhuma vontade de mergulhar nela de uma altura de quarenta e cinco metros no ar. A neblina grossa da manhã só iria piorar lá em cima, sobre a água. Eu ia sofrer.

"É só ligar dizendo que tá doente", minha esposa tinha me dito, mas era humilhante demais. Um homem adulto com medo da neblina do oceano? Não, eu tinha que ser maior que isso, então enchi uma garrafa térmica enorme de café e saí pela porta.

O trajeto matinal estava pesado. No rádio, um dos meus programas favoritos estava tocando, com os apresentadores discutindo uma história de arrepiar sobre dois amigos que se perderam acampando. Eu adorava histórias de terror. Peguei alguns detalhes no começo, mas logo virou ruído de fundo. Minha cabeça estava focada demais na direção. Dei um gole de café pra firmar os sentidos.

Ao me aproximar da ponte, um aviso de tráfego amarelo-pálido projetava um brilho sinistro na rodovia antes do meu carro começar a subida.

Alerta de Neblina: Dirija com Cautela.

A densidade da neblina foi aumentando sobre a água e eu reduzi o carro a um passo de tartaruga, conseguindo ver apenas alguns metros à frente. Uma a uma, as luzes traseiras ao meu redor foram desaparecendo, engolidas pela neblina cada vez mais grossa, até que eu fiquei completamente sozinho na ponte. A travessia pareceu durar horas. Eu sentia o desconforto se arrastando por mim, os músculos das costas enrijecendo, a ansiedade os torcendo com tensão. Eu mal conseguia enxergar nada e minha própria imaginação virou minha pior inimiga, enchendo minha cabeça com os piores cenários. Os pilares de aço viraram monolitos gigantes de pavor, emergindo da escuridão cinzenta para pairar sobre mim, prontos para desabar a qualquer momento. Minhas mãos começaram a tremer no volante — eu não conseguia fazer isso, eu precisava parar — um movimento errado, um solavanco assustado acidental, e eu ia direto pela grade de proteção ridícula e ia mergulhar no escuro lá embaixo. Pisei no freio. Não sei quanto tempo fiquei parado ali, o conceito de tempo tinha se perdido pra mim naquele momento, mas nenhum carro passou. Fui desacelerando minha respiração, inspirando fundo e devagar, até que, finalmente, parte da ansiedade foi embora e eu recuperei a compostura.

Minha cabeça estava um pouco mais clara. Sentia que conseguia enxergar um pouco mais longe do que antes. Lá ao longe, vi um par de pisca-alertas piscando, cortando a escuridão com faróis de laranja intermitente. Acho que eu não era o único tendo dificuldade pra se locomover hoje. Coloquei o carro em marcha e avancei devagar, parando alguns metros atrás do veículo imóvel. Encostado no porta-malas, um homem vestido com roupa social casual me acenou antes de acender um cigarro. A neblina pareceu redemoinhar ao redor dele com o movimento.

"Dia de merda, hein?" Ele perguntou enquanto eu saía do carro. "Eu não conseguia ver dois palmos à minha frente. Resolvi parar e esperar um pouco. Quer um cigarro?"

"Não, tô bem, obrigado." Respondi, um pouco incomodado com a atitude casual do homem. Tinha alguma coisa nele que não parecia bem. À primeira vista ele parecia normal o suficiente — vestido com calça social bege e uma camisa polo preta, ele poderia facilmente ser um dos tantos funcionários do meu próprio trabalho. Mas era quase como se a pele dele estivesse esticada com força demais. Seus movimentos eram robóticos demais, o braço que acenou parecendo funcionar por dobradiças enquanto se movia.

"Só queria ter certeza de que o senhor estava bem." Continuei, mantendo distância. "Provavelmente não é seguro ficar aqui fora por muito tempo."

"Não, tá tranquilo," ele disse com um escárnio. "A pista tá morta hoje, aposto que somos só você e eu por quilômetros e quilômetros. Nunca dá pra saber num dia assim — uma sombra como essa vai te deixar sentindo que você é a única alma na face da terra de Deus. Tem certeza que não quer um cigarro? Aposto que ia te fazer bem. Me chamo Rick, por sinal." Ele sorriu e se empurrou para fora do para-choque traseiro, estendendo a mão.

Foi naquele breve movimento que eu vi. O gesto coincidiu perfeitamente com o piscar dos alertas e eu tive um vislumbre dos finos tentáculos se estendendo do braço de Rick em direção ao céu sombrio acima. O que diabos era aquilo? Deixei minha imaginação desandar de novo.

"Eu preciso chegar ao trabalho." Soltei abruptamente, recuando para o meu carro antes que o homem pudesse se aproximar mais.

De trás do meu volante, eu conseguia vê-los com mais clareza agora, enquanto ele estava parado no brilho dos meus faróis. Dezenas e dezenas de finos tentáculos subindo em direção ao céu a partir de cada parte do homem. Eles se contraíam, ficando tensos e depois relaxando, guiando os movimentos do homem enquanto ele se curvava à vontade de um marionetista invisível.

Ele sorriu e acenou enquanto eu me afastava, os fios etéreos finos puxando as bordas do seu rosto. Acelerei mais rápido do que jamais me atrevi naquela ponte. Os pilares de aço passaram por mim como um borrão enquanto eu cortava a neblina, as mãos cravadas no volante e o pé firme no acelerador. Era um acidente esperando pra acontecer, mas por sorte ninguém mais estava rastejando pela faixa à minha frente. Finalmente, senti meu carro começar a descer a rampa e fui relaxando. A neblina grossa ainda pairava no ar, mas pelo menos eu estava fora da ponte. Fiz mais respirações lentas e profundas, esvaziando a cabeça do ocorrido.

Enquanto eu dirigia, o clima estava pesado. No rádio, um dos meus programas favoritos estava tocando, com os apresentadores discutindo uma história assustadora sobre uma casa de bonecas mal-assombrada que consumia os espíritos dos seus donos. Eu adorava histórias de terror, mesmo num dia como hoje. Por algum motivo eu teria jurado que o episódio era sobre outra coisa, mas acho que minha cabeça estava focada demais na direção pra pegar o começo. Estendi a mão para dar um gole de café, mas a garrafa térmica estava vazia. Que merda — eu realmente queria estar alerta para esse próximo trecho.

Ao me aproximar da ponte, um aviso de tráfego amarelo-pálido projetava um brilho sinistro na rodovia antes do meu carro começar a subida.

Alerta de Neblina: Dirija com Cautela.

Respirei fundo e reduzi o carro a um passo de tartaruga. Exatamente como eu imaginava, a neblina havia começado a se intensificar sobre a água. Eu não conseguia ver nenhuma outra luz traseira na escuridão ao meu redor. Sentia minha imaginação começar a desandar, enchendo minha cabeça com os piores cenários. Os músculos das costas enrijeceram com o início da ansiedade. Espero chegar logo ao trabalho.

domingo, 15 de março de 2026

Eu Morri Ontem, e Joguei um Jogo com o Diabo pela Minha Alma

Acho que morri ontem.

Foi um acidente de carro. Eu estava a duzentos e dezessete quilômetros por hora na rodovia, na chuva, e… bom, não me lembro muito sobre o acidente. M-me lembro de fazer uma curva rápido demais, me lembro de capotar, e… me lembro de uma praia. Foi praticamente indolor. Não tive nem tempo de sentir medo. Sei que tudo ficou negro, e bom, suponho que é aí que a história começa.

Você já foi à praia quando era criança? Tem alguma lembrança turva de uma orla lotada com sua família? Condomínios enfileirados na areia, e o oceano até onde os olhos alcançavam? Não? Bom, eu tenho. Era o lugar favorito da minha família. Todo verão, a gente descia de carro e passava uma semana na praia com primos e avós, brincando na areia e nadando no oceano. A maioria das minhas melhores memórias aconteceu num calçadão ou do lado de um castelo de areia.

Quando morri, acordei numa praia. Uma praia vagamente familiar, um lugar tão perto de ser uma memória, mas não exatamente. Estava vazia, completamente vazia, nem uma alma por quilômetros. Gritei em vão, berrei até sentir meus pulmões como se tivessem pegado fogo. Ninguém nunca respondeu.

Havia uma névoa estranha pairando ao meu redor; mal conseguia enxergar até a beira d'água. Eu deveria ter desistido antes, mas continuei gritando na esperança de que alguém eventualmente respondesse. Condomínios enfileiravam a borda do meu campo de visão numa direção, e um oceano na outra; porém, os dois estavam a uma distância impossível — não importava o quanto ou quão rápido eu corresse em qualquer direção, parecia que eu não conseguia chegar mais perto. Eu estava me movendo, porém — testei esse pensamento cavando um buraquinho na areia e correndo o mais rápido que pude em direção ao oceano — e de fato, ele ficou bem para trás de mim.

Apesar de toda a falta de esperança, continuei caminhando pela praia, gritando e chorando até minha garganta doer tanto que mal conseguia respirar. Acho que estava chorando também, não tenho tanta certeza — as emoções se comportavam de forma estranha ali. Eu não estava exatamente entorpecido para tudo, mas também não estava em pânico, estava com medo, não estava com raiva… apenas sem esperança. Era quase como se essa fosse a única emoção que me era permitido sentir naquele instante, e qualquer outra coisa fosse só uma falha de julgamento.

Eu sentia fadiga, dor também, e no fim ficou insuportável demais. Estava cansado de gritar, cansado de correr, cansado de… bom, honestamente, estava cansado de estar vivo. Era para isso que esse lugar parecia me empurrar — desistir, deitar e virar parte da praia para a próxima alma infeliz que viesse vagar por ali. A falta de esperança era como um fardo nos meus ombros, quase impossível de carregar, mas eu carregava… pelo maior tempo que conseguia.

Caí de joelhos, derrotado. Finalmente desistindo depois do que eu havia concluído ser um dia inteiro, já que o sol havia voltado mais uma vez ao seu lugar diretamente acima de mim. Fitei a distância, saboreando o alívio que vinha das minhas panturrilhas, antes que o peso esmagador caísse sobre meus ombros mais uma vez.

"Eu desisto," murmurei, fitando a distância, imaginando que estava falando com a própria praia. "Você venceu."

A princípio, achei que estava tendo alucinações, depois estava quase certo de que havia enlouquecido, até que finalmente aceitei que conseguia ver o contorno tênue de alguém emergindo da névoa.

"Vamos jogar um jogo," uma voz demoníaca ecoou do próprio universo, fazendo o chão tremer e o oceano ondular.

Saltei de pé, sentindo medo pela primeira vez desde que havia chegado a esse lugar, e gritei de volta: "Quem porra é você?!"

"A Morte."

Me virei para correr, mas me vi cara a cara com a figura, antes que ele levantasse o dorso da mão e me derrubasse no chão. Me lembro de uma dor intensa, uma agonia que nunca havia sentido antes. Achei que ele havia quebrado tudo no meu corpo; doía demais.

Deitado de costas na frente do homem, apertei meu rosto com as mãos e o enxerguei com clareza pela primeira vez. Era eu. Ele era idêntico a mim, cada mínimo detalhe, até o pelo encravado embaixo do meu nariz.

"Quem é você–" tentei falar, mas o homem rapidamente acenou a mão na minha frente, e meus pulmões pareceram ficar sem ar.

Engasgei e tossi, agarrei minha garganta e tentei gritar, mas nada saía, e meus pulmões começaram a queimar.

"Vamos jogar um jogo, pela sua alma," o homem continuou falando, completamente indiferente à minha luta diante dele. "Se você vencer, poderá entrar pelos portões do paraíso lá em cima," o homem me chutou de volta para os joelhos enquanto eu tentava me levantar, sufocando. "Porém, se você perder, sua alma é minha, e você ficará comigo em tormento pela eternidade."

Me contorci na areia; a dor nos meus pulmões era insuportável, e minha cabeça parecia que ia explodir sob a pressão se eu não respirasse.

O homem acenou a mão na minha frente, e eu engoli ar, recebendo de repente a permissão de respirar novamente. Arfei e chorei enquanto ofegava até a dor lentamente se dissipar, e as lágrimas começaram a secar.

"Você entende as apostas do nosso jogo?" o homem perguntou.

"Por que… por que você está fazendo isso–" gemi.

"SILÊNCIO!" A voz do homem troou de todo o universo, de todos os cantos do meu corpo. Ondas de dor ecoaram de cada átomo da minha existência, e eu caí de costas gritando em agonia. Ondas mais altas do que eu se chocaram contra a orla, e os prédios enfileirados na areia começaram a desmoronar sob o peso do poder desse homem.

"Você entende?" Ele falou novamente em um sussurro quase imperceptível.

Me recompus rapidamente, caindo de joelhos diante do homem, recusando-me a ficar naquele sofrimento por mais um instante sequer, e petrificado de que ele ficasse impaciente de novo.

"Sim, eu entendo, eu–" respondi.

O homem me roubou o fôlego mais uma vez.

"Esta praia contém centenas de milhares de milhões de toneladas de areia só dentro do campo de visão." O homem começou a caminhar ao meu redor. "Quero que você conte cada único grão de areia que existe nesta praia."

Olhei para ele com nojo através do meu sofrimento. Como diabos ele esperava que eu fizesse isso? Era impossível!

"Claro, você é livre para desistir a qualquer momento. Porém, isso significaria abandonar o jogo, e isso significa que eu ganho." Um sorriso de escárnio se abriu no rosto dele. "Você pode levar o tempo que precisar, e pode tentar quantas vezes quiser; afinal, temos a eternidade." O homem começou a dar uma risadinha, e a risadinha rapidamente virou uma gargalhada, e da gargalhada para uma risada maníaca que ecoou pela praia. "Bem-vindo ao paraíso!"

O homem desapareceu tão rapidamente quanto havia chegado, se dissolvendo em névoa, e levando consigo qualquer domínio que tinha sobre mim. Arfei atrás de ar e me deleitei na paz que veio com a ausência dele; porém, fui rapidamente esmagado em absoluta falta de esperança mais uma vez, diante da tarefa assustadora que parecia tão impossível.

Depois disso, as coisas ficam… vagas. Não é que eu não me lembre do que aconteceu; só não consigo lembrar por quê, nem como, nem mesmo quando. Tipo, eu sei que comecei a contar rapidamente, mas não me lembro por que desisti tão facilmente de tentar escapar. Me lembro de fragmentos de números; me lembro de lembranças de buracos na areia e pilhas mais altas do que minha altura três vezes. Me lembro de cada segundo horrível que passei naquele… naquele… inferno, mas não me lembro da quantidade exata de tempo que fiquei lá.

A última memória que tenho daquele lugar foi de um número impossível: 10.289.798.543.

Então acordei. Estava no fundo de uma ambulância, paramédicos ao meu redor, gritando palavras ininteligíveis. E depois de inúmeras cirurgias, e ainda mais por vir, saí bem.

Mas ouça isso: me lembro claramente do número exato de dias que passei contando areia — me lembro de 163 anos fazendo isso — mas fiquei clinicamente morto por apenas cerca de 2 segundos. Olha, eu sei o que você está pensando: provavelmente foi algum tipo de truque que minha mente pregou em mim no último segundo, ou algum tipo de sonho estranho, ou algum efeito colateral bizarro da anestesia, mas você está errado! Encontrei areia nos meus sapatos esta manhã, porra, areia! Eu sei que não estou louco, juro!

Nem consigo me dar ao trabalho de me perguntar por um segundo se estou louco, porque o único pensamento que me atormenta é se esse é o inferno que me espera — quando o motivo pelo qual eu fui parar na beira da estrada finalmente me alcançar, quando o câncer no meu cérebro finalmente me dominar em questão de dias.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon