quinta-feira, 19 de março de 2026

Eles Respiram à Noite

Quando eu era criança, eu passava muito tempo na casa dos meus avós.

Era tão segura, tão quentinha e, sinceramente, não tinha lugar no mundo onde eu preferisse estar. Eles me davam leite à noite, eu podia dormir na cama grande.

Mas conforme fui crescendo, passei a dormir no meu próprio quarto, e aquele quarto… Ele ainda me assombra até hoje.

Uma cama de solteiro no canto do quarto, encostada bem juntinho em armários que iam do chão até o teto e que te obrigavam a arrastar a cama se quisesse abrir algum. O armário do pé da cama era onde eu guardava minhas coisas boas: lanches, salgadinhos e meus brinquedos favoritos. A janela ficava bem na cabeceira da cama, com um espacinho certinho pra encaixar.

Mas tinha uma coisa em um daqueles armários, o terceiro a partir do final, bem onde minha cabeça ficava quando eu dormia. Eu nunca contei pra ninguém. Achava que estava errado pelo que eu sentia à noite.

De dia era liberdade total e hora de brincar. Eu podia passar o dia inteiro vendo TV ou andando no meu triciclo. Minha avó cozinhava as melhores refeições do mundo e, no meu tempo livre, eu montava meus kits Airfix. Meu avô passava a maior parte do ano fora do país trabalhando. Doía nele deixar a gente tanto tempo assim, mas o comércio naval de petróleo pagava as contas.

Ele sempre trazia todo tipo de lembrança de uma quantidade enorme de países. Areia numa garrafinha da Arábia Saudita, tartarugas de cristal, uma vez até trouxe óleo cru de um vazamento no México. Mas a coisa que ele nunca deixava de trazer eram estátuas de madeira de todos os tipos. Tínhamos bustos esculpidos, manchados de anos tomando sol. Havia estátuas de corpos sem braços nem pernas, sem cabeça, só os corpos, sem nenhuma maneira de se mexerem.

Como era o quarto de hóspedes, eles insistiam em guardar aquelas estátuas ali. Os poucos bustos que ficavam na minha prateleira de cima eu virava de costas antes de dormir. Não conseguia tirar da cabeça a sensação de que eles estavam me olhando. Assim, minha escuridão ficava segura.


Eu ia pra cama como sempre naquela noite, com um copo d’água e leite quente que subiam comigo, rotina padrão. Me deitei pra ler e os barulhos começaram. Um gemido grave e baixo, com clique, claque, clique. Quase como o sobe e desce de uma respiração. Apaguei a luz. Eu já estava acostumado com aqueles sons. Se eu apagar a luz, eles não me pegam, não tem como me verem no escuro. Isso significava que a escuridão tinha que ser minha amiga.

O sono me pegava mais rápido do que eu queria todas as vezes. Eu acordava encharcado de suor e paralisado, preso olhando fixo pro meu baú de brinquedos no canto mais distante. Toda. Maldita. Vez. Os barulhos continuavam e o leve brilho no canto, perto do pé da cama, dava a luz que eles precisavam pra se fortalecer. Ficavam cada vez mais altos, o baú de brinquedos parecia cada vez mais longe, mas eu continuava imóvel. Quente, fervendo até os ossos, mas sem conseguir nem levantar a cabeça.

Os rangidos e cliques ficavam mais altos, aquela respiração ralhada de morte me mantinha acordado. Eles estavam ali e eu conseguia senti-los atrás de mim. Estavam dentro dos armários, eu sabia, mas não conseguia olhar. Eles não me deixavam virar, não me deixavam nem fechar os olhos.

O brilho no canto ficava cada vez mais forte, pareciam passar horas com meus olhos grudados abertos. Injetados de sangue, vermelhos e rosados naquela luz escaldante. Eles me forçavam a olhar, mas não me mostravam suas formas verdadeiras. Então eu ficava ali, petrificado com a presença deles, até o cansaço tomar meu corpo à força e me jogar de novo na escuridão.

Às vezes, por algumas noites seguidas, ficava tranquilo. Eu acordava de manhã sem nenhuma memória, com a esperança de que nada tivesse acontecido à noite. Nunca tinha certeza, mas havia sinais.

Eu entrava no quarto durante o dia pra pegar algum lanche secreto. Parecia bobagem ter medo do armário de dia, nenhum barulho, ele estava sempre um pouquinho entreaberto — provavelmente roupa de cama, eu pensava. Mas as estátuas… elas nunca estavam *exatamente* do jeito que eu tinha deixado.

Uma noite, meus olhos abriram de repente. Eu mal conseguia respirar com o calor que estava no quarto. Meu edredom me prendia sem espaço pro ar, eu estava sufocando devagar. Meu suor infiltrava no colchão.

Todo pensamento sobre isso sumiu quando eu notei. Nessa noite eu estava de barriga pra cima, minha visão periférica estava turva, mas eu tinha visão em túnel… Eu conseguia ver a prateleira naquela noite, e o busto que eu tinha virado de costas poucas horas antes tinha tombado de lado e… Ela? Estava me olhando com olhos fundos e vazios, poços negros sem saída. Eles me puxavam pra dentro, mas meu corpo continuava como um cadáver, encharcado até os ossos.

Na lateral da minha visão, um movimento leve. Aquilo, os cliques, a respiração… era demais. Tentei gritar, tentei com todas as forças, mas o grito travou na garganta. Engasguei, entrei em espiral, tossindo e engasgando. A estátua caiu da prateleira e eu caí junto, desabando no chão numa pilha imóvel e quebrada. Soluçando, a escuridão finalmente me consumiu. Não tinha mais luz pra me acordar pros terrores daquele quarto.

Eles me encontraram ali de manhã, imóvel, mas respirando. Eu não conseguia explicar o que tinha acontecido comigo, mas eles me abraçaram forte.

Anos depois, eu perguntei pro meu avô sobre os barulhos. Lembrei de repente numa noite, durante o jantar em família. Ele riu e me contou que a caldeira antiga fazia todo tipo de som: batidas e gemidos enquanto os canos se expandiam. De repente tudo fez sentido. Eu me senti ridículo por ter medo de uma coisa tão boba. Ele continuou dizendo que a caldeira tinha sido removida em 1978. Eu ri e falei que não podia ser, eu nasci no começo dos anos 2000.

Ele sorriu e deu de ombros, devia estar me confundindo com o meu pai.

Eu dei sementes pra uma coruja e ela mordeu minha mão

Quando eu era uma menininha, ouvi o piado suave de uma coruja bem pertinho. Saí da cama correndo e fui direto pra janela da sala, porque era o lugar onde eu achava que tinha mais chance de ver a coruja. Agarrei a cortina, mas antes de conseguir abrir, minha mãe me parou, acordada pelos meus passos barulhentos.

“Você não pode fazer isso”, disse minha mãe com uma voz suave, mas firme.

“Desculpa”, respondi, desviando o olhar dela.

“Tudo bem. Mas só lembra que você não pode abrir as cortinas à noite porque pode chamar a atenção das bruxas”, ela me lembrou enquanto me levava de volta pro quarto e me cobria direitinho.

Não lembro se respondi alguma coisa, mas lembro dela me abraçando bem forte e, em algum momento, eu peguei no sono.

Tem uma história bem conhecida na minha cidade. As corujas são bruxas disfarçadas. Elas se transformam à noite e voam pelo bairro procurando a próxima vítima. Quando escolhem alguém, elas pousam no telhado da casa e avisam o morador que a morte está chegando.

Às vezes a morte não é imediata, mas nessa ocasião foi. Duas casas depois da minha, o bebê recém-nascido de um casal morreu dormindo. A notícia se espalhou rapidinho. Do ponto de vista médico, o menino morreu de SIDS, síndrome da morte súbita infantil, mas todo mundo sabia o que tinha acontecido de verdade: uma bruxa roubou a alma dele.

Alguns meses depois, tudo tinha se acalmado de novo. O casal que perdeu o bebê mudou de casa e um casal novo se mudou pra lá. Ninguém tinha ouvido coruja nesses mesmos meses e, finalmente, todo mundo dormia em paz.

Uma manhã, eu saí pro quintal dos fundos pra procurar joaninhas. Encontrar elas significava que eu ia ter sorte.

“Bom dia, passarinhos!”, acenei pros periquitos dentro da gaiola.

Eu adorava ver eles voando pela gaiola grande que meu pai tinha construído pra eles. Mas naquele dia eu estava numa missão e corri direto pro jardim pra achar o máximo de joaninhas possível.

Toda vez que eu achava uma joaninha, contava quantos pintinhos ela tinha e depois colocava na minha mão na esperança de que virasse minha amiga. Eu ria quando elas faziam cócegas com as patinhas minúsculas. Toda vez que uma voava embora, eu ficava um pouquinho triste, mas logo me recuperava e voltava pra busca.

O canto dos periquitos tinha virado minha trilha sonora de fundo. Passou uma hora, ou talvez duas, ou talvez só dez minutos quando o papo normal dos periquitos virou gritos de terror.

Eu me virei rapidinho e vi uma coruja tentando alcançar a gaiola. Esqueci completamente da minha tarefa e corri pra gaiola e pra coruja.

Quando cheguei mais perto, percebi que a coruja estava machucada. Tinha sangue na asa esquerda dela. Demorei um segundo pra notar que os periquitos tinham se calado e que a coruja estava me olhando direto nos olhos.

“Tá tudo bem. Eu não vou te machucar”, tentei tranquilizar a coruja.

A coruja continuou me encarando, dando olhadas rápidas pra gaiola de vez em quando.

“Deixa eu pegar uns curativos adesivos e aí eu te dou comida! Por favor, fica aí!”, gritei pra coruja enquanto corria de volta pra dentro de casa.

Corri pro meu quarto e peguei vários curativos, caso a coruja tivesse um corte grande. Eu sempre me sentia melhor quando minha mãe colocava um curativo em mim. Torci pra conseguir fazer o mesmo pela coruja.

Ela ainda estava parada perto da gaiola quando eu voltei. Me aproximei devagar, tentando não assustar ela. Toquei na cabeça dela e fiquei maravilhada com a maciez das penas.

“Isso vai doer um pouquinho, mas prometo que você vai se sentir melhor logo”, falei pra coruja enquanto levantava a asa dela e colocava dois curativos rosa. A coruja não se mexeu, ficou me olhando o tempo todo, mas nunca tentou morder.

Aí me veio outro pensamento. Ela devia estar com fome e por isso estava parada perto da gaiola — queria sementes! Na época eu não sabia que corujas eram carnívoras, achava que todos os pássaros comiam sementes.

Peguei o saco de sementes que ficava embaixo da gaiola e coloquei um punhado na minha mão. Ofereci pra ela, torcendo pra que, se comesse, se sentisse melhor.

A coruja me olhou por um tempão. Não dava pra saber o que ela estava pensando, mas eu mantive a mão estendida na esperança de que ela comesse e melhorasse.

Como se tivesse decidido, a coruja deu uma mordida nas sementes — e junto com elas, mordeu minha mão.

“Ai!”, gritei enquanto puxava a mão pra longe.

A coruja ficou ali parada, me observando.

Senti as lágrimas enchendo meus olhos. Já tinha sido mordida pelos periquitos antes, mas nunca tinha sangrado. Falei pra mim mesma que provavelmente foi um acidente e, mesmo sem querer levar outra mordida, estendi a mão de novo pra coruja na esperança de que ela comesse mais.

A coruja me deu mais uma olhada e resolveu terminar as sementes que sobraram na minha mão. Depois que comeu todas, inclusive as sujas de sangue, ela foi embora sem avisar.

Não sei por que menti pros meus pais sobre como cortei a mão. Falei que tinha tropeçado e que minha mão tinha batido numa pedra afiada. Depois que eles viram que eu não precisava de pontos, colocaram uns curativos e só me mandaram tomar mais cuidado.

Algumas noites depois, ouvi o piado de aviso da coruja sobre a morte que estava chegando. Lembrando do aviso da minha mãe, não fui olhar pela janela. Em vez disso, rezei pra coruja não estar na casa do vizinho, porque o Don Cristobal fazia as melhores tortilhas do mundo e eu queria pedir umas de manhã.

Naquela noite, a coruja estava particularmente agitada. Normalmente a gente ouvia uns piados por alguns minutos e depois ela sumia. Dessa vez, os avisos dela continuaram a noite inteira, até o sol raiar e quebrar a escuridão.

Na manhã seguinte, não aconteceu nada. Com permissão dos meus pais, fui pra casa do lado e comi umas das melhores tortilhas da minha vida. Os vizinhos cochichavam sobre o que tinha rolado na noite anterior, se perguntando quem seria o próximo a morrer.

O medo da morte foi diminuindo nos dias seguintes porque nada aconteceu. Talvez dessa vez a coruja tivesse se enganado. Talvez essa coruja específica não fosse uma bruxa. Talvez…

E aí aconteceu. Eu estava sentada lá fora com meus pais comendo sanduíches quando vi a coruja que eu tinha alimentado. Os curativos ainda estavam grudados na asa dela. Quando eu ia apontar ela pros meus pais, o chão começou a tremer.

Meus pais tentaram me alcançar. Eu tentei levantar e correr pra eles, mas era impossível. Na minha tentativa desesperada de chegar neles, nem percebi que a coruja estava vindo na minha direção.

Quando eu a vi, fiquei confusa. Vi ela crescer, ficar enorme, quase do tamanho dos meus pais. Ela mergulhou, abriu as asas por cima de mim e me cobriu. Eu conseguia ouvir os gritos dos meus pais, as casas ao redor caindo e o chão rachando.

Quando finalmente parou, tudo ficou em silêncio.

A coruja tirou as asas protetoras de cima de mim e, sem avisar, voou embora. Tudo ao meu redor estava destruído. O bairro inteiro tinha sumido. Depois me contaram que eu fui a única sobrevivente.

Minha história de ter sido salva pela coruja-bruxa foi descartada como coisa de criança tentando lidar com o inimaginável. Eu sei o que vi, e ainda vejo ela voando perto da minha casa de vez em quando. Carrego a cicatriz que ela deixou na minha mão esquerda daquele dia que eu alimentei ela.

E eu sei que um dia ela vai pousar no meu telhado pra anunciar a minha morte.

Ele Olha de Volta na Escuridão

Ultimamente, toda vez que eu desço pro nosso porão pra pegar alguma coisa — seja qualquer equipamento de pesca que eu guardo lá embaixo ou algo do congelador fundo —, eu olho pra cima da escada quando chego lá embaixo, ligo a luz e, só por uma fração de segundo, vejo alguma coisa no topo da escada.

A gente mora nessa casa há um bom tempo, eu e minha esposa, então a maioria dos barulhos e coisas que batem à noite dá pra explicar fácil: tábuas rangendo ou vento assobiando contra as vidraças. Mas isso aqui é diferente. Isso me mantém acordado à noite, pensando no que diabos é, se são meus olhos pregando peça ou até um tumor pressionando meu crânio (foi o que Diane, minha esposa, sugeriu). Eu tentei ficar lá embaixo e apertar os olhos na escuridão, tentando distinguir onde a figura estaria — até ligando e desligando as luzes várias vezes seguidas, ligando e desligando, ligando e desligando. Por horas. Só tentando ver o contorno da figura por um mísero segundo que fosse.

Diane acha que eu tive um colapso nervoso. Ela pediu licença médica de emergência no meu trabalho pro futuro previsível e me sentou com todos os médicos e terapeutas que conseguiu encontrar pra tentar me diagnosticar e me encher de remédios pra eu não sentir mais nada. Me encher de remédios não vai fazer o medo ir embora. Pode acreditar — eu bebi o suficiente ao longo dos anos pra saber como é se sentir completamente anestesiado pro mundo, mas isso aqui é outro nível. Eu sinto no fundo mais profundo do meu estômago que o que quer que eu veja naquela fração de segundo é real.

Eu estava sentado todo encolhido no chão do porão, minha mão esticada pra cima clicando sem parar o cordão da luz e virando a cabeça fracamente pro topo da escada. Eu já não fazia ideia de que hora ou que dia era, nem de quanto tempo eu estava lá embaixo — meus olhos ardiam de tanto encarar e meu braço latejava, mas nada mais importava.

Em meio ao meu transe, ouvi o passo firme e acolchoado de Diane se aproximando da porta do porão. Ela suspirou e passou a mão pelo cabelo. Eu a escuto começar a descer, mas no meu foco eu a perco completamente. É como se ela nem existisse. Tudo que eu consigo focar é o clique da luz e meu coração vacilante. Ligado, desligado, ligado, desligado, ligado. Talvez se eu apertar mais os olhos eu consiga ver melhor. Ligado, desligado, ligado, desligado. Tenho certeza de que se eu continuar tentando, o que quer que eu venha vendo vai finalmente ficar ali e me deixar ver o que é e finalmente me deixar descansar. Ligado, desligado, ligado, desligado, ligado...

— Por favor, você não quer vir pra cama? Eu fico te dizendo que não tem nada ali, querido. Deve ser estresse do trabalho.

Diane aperta os olhos contra o piscar alucinante da luz que eu faço puxando o cordão sem parar, estendendo a mão pra acariciar meu rosto. Eu quero me afastar do toque. Ela estava destruindo meu foco.

— Você está aqui embaixo há horas, isso tá começando a me preocupar de verdade.

Eu paro de clicar pra olhar pra ela. Olhar de verdade. Uma expressão preocupada puxa os cantos da boca dela numa linha apertada. Ela não acredita em mim nem um pouco.

— Você não entende… Eu… eu sei que tem alguma coisa ali, toda vez que eu ligo a luz. Eu juro que consigo ver. Por que você não acredita em mim? — sinto o desespero subindo pelo peito.

Ela suspira de novo e me aperta num abraço forte.

— Por que amanhã de manhã a gente não marca outra consulta com os médicos e vê o que dá pra fazer com essa insônia sua? Sabe, eu estava lendo que ficar acordado tempo demais pode causar alucinações e…

A voz dela some, as palavras viram estática nos meus ouvidos. Eu sinto todos os pelos do corpo se arrepiarem ao mesmo tempo. Na luz do porão, numa forma borrada, alguma coisa estava parada no topo da escada. Parecia alto e quase disforme, mas tão borrado e fraco que eu não conseguia distinguir quase nada além de uma expressão triste no “rosto” dele. Uma cara quase cômica de tristeza exagerada que me olhava vazia. Eu me arranquei dos braços de Diane e gritei o mais alto que consegui, lágrimas escorrendo pelo rosto. Meu corpo tremeu violentamente enquanto eu me arrastava pro canto da sala, tentando me proteger do que quer que estivesse ali. Diane ficou horrorizada, tentando me calar como se eu fosse criança e exigindo saber o que tinha acontecido.

— EU VI! POR QUE VOCÊ NÃO CONSEGUE VER! EU VI A EXPRESSÃO NO ROSTO DELE! — eu respiro fundo, tremendo —, POR FAVOR ME DIZ QUE VOCÊ CONSEGUE VER!

Eu cubro os olhos com as mãos e soluço pateticamente feito criança.

Ela suspira, exasperada, olhando rápido da minha forma aterrorizada pro topo da escada —

— Querido, eu fico te dizendo, não tem nada ali! Agora para de ser bobo e vem pra cama comigo.

Ela me arranca do chão e me arrasta escada acima direto pro nosso quarto. Eu não lembro muito dos dias seguintes — foi tudo um borrão de Diane basicamente me forçando a comer e me obrigando a levantar e andar, mas por mais que ela insistisse, eu não chegava nem perto do porão. Ela me fez prometer que eu não ia mais descer lá ou então a gente ia pros médicos e finalmente tomaria algum remédio.

Teve uma noite, porém, em que eu de repente me sentei ereto na cama e senti uma vontade esmagadora de ir pro porão. Pra não acordar Diane, eu andei pela casa o mais silencioso possível. Finalmente cheguei na porta do porão.

Meu coração batendo fora do peito, eu estendo a mão trêmula pra maçaneta e…

A luz se acende.

— Querido. Você me prometeu que não ia mais descer lá! Eu tentei ser o mais tolerante possível com esse comportamento, porque eu te amo e sempre tô do seu lado, mas agora você tá levando isso longe demais. Você tá doente mentalmente e a gente precisa fazer alguma coisa a respeito.

Ela me repreende como se eu fosse sujeira debaixo da bota dela. Ela nunca me entendeu. Sempre a mesma Diane cheia de condescendência.

— Diane, eu tô te dizendo do fundo do meu coração que tem alguma coisa ali. Eu vi da última vez que desci. Tá me deixando louco e a única forma de resolver isso é tentar ver por tempo suficiente, eu sei que—

— Sentir louco? VOCÊ É LOUCO! Você faz ideia do que eu tive que dizer pras pessoas? Pros nossos amigos? Eu tive que inventar histórias de que você tá tão ocupado com o trabalho que nem consegue mais sair de casa pra ver eles. Você não vai trabalhar há MESES!

A raiva sobe pelo meu peito e eu sinto os punhos se cerrarem. Diane dá um passo na minha direção, na direção da porta.

— E sabe de uma coisa? Eu vou abrir a porta e te mostrar que não tem nada ali, e essa sua fantasia finalmente vai acabar!

Ela puxa a porta com força, revelando a escuridão do porão lá embaixo.

— Viu? Eu te disse que—

Meu corpo age sozinho. Eu empurro Diane com toda a força escada abaixo. Ela olha pra mim em puro horror por uma fração de segundo antes de eu ver o corpo dela cair degrau por degrau e bater no concreto frio com um baque alto.

Meu peito sobe e desce. Tudo que eu escuto é um zumbido nos ouvidos.

Demora um tempo eu parado ali congelado antes de conseguir perceber o que fiz. A sensação volta pro meu corpo enquanto minhas pernas me carregam escada abaixo e eu embalo Diane nos braços, chorando pateticamente em cima dela.

Eu arrisco um último olhar pro topo da escada.

Ele está lá. Olhando pra mim. Dessa vez, com um sorriso cartunesco no rosto.

quarta-feira, 18 de março de 2026

A Porta do Elevador Abriu em um Andar que Não Existe e Algo Nela Sabe que Eu Estou Aqui

Estou postando isso do meu celular enquanto me escondo dentro de um armário de suprimentos em um andar do meu prédio de escritórios que não deveria existir, e preciso que alguém saiba onde eu estou porque minha namorada está no telefone comigo e ela tá tentando ajudar, mas não consegue ajudar, e eu preciso que mais de uma pessoa saiba.

Meu nome é Shane Gallagher. Eu trabalho no décimo quarto andar do Calloway Building no centro de Pittsburgh. Trabalho aqui há três anos. Conheço esse prédio do jeito que você conhece qualquer lugar onde passa quarenta horas por semana — não íntimo, não cada cantinho, mas bem o suficiente pra qualquer coisa errada bater na cara imediatamente. Bem o suficiente pra, quando o elevador abriu hoje à noite em um andar que não tá nesse prédio, eu souber que não tava nesse prédio antes mesmo de processar conscientemente o que eu tava vendo.

Eu saí mesmo assim porque as portas tavam fechando e eu entrei em pânico e dei um passo pra frente em vez de pra trás, e essa é a decisão que eu tenho revivido nos últimos quarenta minutos.

Preciso descrever o andar porque a descrição importa.

Parece o décimo quarto andar. Essa é a primeira e mais importante coisa — não é um inferno alienígena, não tá obviamente errado do jeito de pesadelos, não é escuridão e dentes e geometria impossível. Parece um andar de escritório corporativo em um prédio médio de Pittsburgh às onze da noite. Forro de gesso com painéis fluorescentes, a maioria apagada, dois ou três piscando. Carpete industrial num tom de cinza-azulado que combina exatamente com o carpete do décimo quarto. Divisórias de cubículos arrumadas no layout aberto que eu atravesso toda manhã. Uma fileira de escritórios com paredes de vidro na parede do fundo que parecem exatamente os escritórios com paredes de vidro do décimo quarto.

O erro tá nos detalhes. As divisórias de cubículos são um pouco altas demais — uns centímetros acima do padrão, o suficiente pra ser inquietante sem ser imediatamente identificável como errado. O carpete tem um cheiro que o do décimo quarto não tem: algo por baixo do cheiro padrão de escritório de ar reciclado e café velho, algo orgânico e levemente doce que eu notei no momento em que as portas do elevador abriram e que eu tenho tentado não pensar desde então. Os painéis fluorescentes que ainda tão acesos emitem uma luz da cor certa, mas da qualidade errada — plana demais, sem gradação, o tipo de luz que enche um espaço sem iluminá-lo, se isso faz sentido. Tudo tá visível e nada projeta sombra.

E o número do andar acima das portas do elevador, que deveria dizer 14, diz 13. Ao contrário. Os dígitos invertidos, como se o letreiro tivesse sido instalado por alguém que soubesse como os números pareciam, mas nunca tivesse visto eles na orientação certa.

Eu vi tudo isso nos dois segundos antes das portas do elevador se fecharem atrás de mim, e eu me virei e apertei o botão de chamada e fiquei na frente das portas por seis minutos apertando o botão a cada trinta segundos, e o elevador não voltou.

Eu liguei pra minha namorada Aleeza Rees aos nove minutos. Quero explicar por que tô contando isso em parte pelo que rolou nessa ligação porque Aleeza é com quem eu tava falando quando as coisas importantes aconteceram, e as reações dela fazem parte do registro disso, e eu quero que o registro seja completo.

Ela atendeu no segundo toque, o que é normal pras onze da noite numa noite de semana — ela fica acordada até tarde, lê na cama, é o tipo de pessoa que atende o telefone. Eu contei pra ela onde eu tava e o que tinha acontecido, e houve um silêncio de uns quatro segundos, e aí ela disse, bem devagar, na voz que ela usa quando tá com medo mas não quer passar o medo: "Tá bom. Não sai do elevador. Continua apertando o botão. Vou ligar pro número de emergência do prédio e vou te manter no telefone."

Eu disse pra ela que o elevador não tava voltando. Ela disse pra continuar apertando mesmo assim. Apertei por mais três minutos enquanto ela me colocou em espera e ligou pra alguém e voltou e disse que o número de emergência tinha tocado sem resposta, e ela tava tentando a empresa de gerenciamento. Apertei o botão e ouvi o zumbido da luz errada e plana acima de mim, e olhei pras divisórias de cubículos altas demais, e respirei o cheiro orgânico doce, e tentei não pensar no que tava causando aquilo.

Aí eu ouvi o som e parei de pensar em qualquer outra coisa.

Veio de algum lugar mais fundo no andar — passando a fazenda de cubículos, da direção dos escritórios com paredes de vidro na parede do fundo. Um som que eu vou descrever o mais preciso possível porque a precisão parece importante agora. Era rítmico. Era molhado. Tinha o ritmo de algo sendo repetido com paciência e propósito, um som que sugeria processo em vez de acidente, e tava se movendo. Não estacionário. O que quer que tava fazendo aquilo tava se movendo pelo espaço num padrão que eu não conseguia mapear do elevador porque as divisórias de cubículos bloqueavam minha visão além das primeiras fileiras.

Eu disse pra Aleeza que ouvia algo. Ela me disse pra ficar completamente parado e não fazer barulho nenhum. Fiquei parado. Não fiz barulho. O som continuou por uns dois minutos e aí parou, e o silêncio depois dele tinha aquela qualidade específica de silêncio que vem quando algo para de se mover em vez de quando algo para de existir. Ainda tava lá. Só tinha ficado quieto.

Aleeza voltou na chamada principal. Ela disse que tinha falado com alguém da empresa de gerenciamento que ia ligar pro segurança noturno do prédio e mandar ele subir. Disse que o nome dele era Zac Graham e ele trabalhava no prédio há onze anos e conhecia melhor que ninguém, e ele ia chegar logo. Eu contei pra ela sobre o som. Outro silêncio de quatro segundos. Aí: "Zac tá vindo. Fica perto do elevador. Não vai mais fundo no andar."

Eu disse pra ela que não tinha a menor intenção de ir mais fundo no andar.

Isso foi antes do botão de chamada do elevador apagar.

O botão não quebrou — ou não pareceu quebrar, que tem uma sensação particular, uma ausência súbita. Apagou do jeito que uma luz apaga quando algo corta a energia na fonte: o painel inteiro perdendo a iluminação de uma vez, os números acima da porta apagando, as portas em si virando só portas sem mecanismo atrás. Apertei o botão doze vezes em sequência rápida e nada aconteceu, e eu contei pra Aleeza, e ela disse "Zac tá a caminho, Shane, Zac tá vindo" numa voz que tava se esforçando muito pra ficar firme, e eu agradeci o esforço, e não disse pra ela que Zac a caminho parecia bem menos reconfortante agora que o elevador tava morto.

Quero te dizer que eu fiquei perto do elevador. Quero te dizer que fiquei na frente daquelas portas mortas pelos próximos vinte minutos apertando um botão que não funcionava e esperei calmamente pelo resgate. Não fiz isso. Fiz isso por uns quatro minutos, e aí o som começou de novo — mais perto dessa vez, a duas ou três fileiras de cubículos de distância em vez da parede do fundo — e eu tomei uma decisão que defendo até agora, que é ficar completamente parado do lado de um elevador sem funcionar enquanto algo molhado e rítmico se move na sua direção pelas fileiras de cubículos não é na verdade a opção segura só porque parece espera.

Eu me mexi. Fui pra esquerda pela parede do elevador, longe do som, ficando baixo abaixo do topo das divisórias de cubículos, me movendo o mais quieto que o carpete industrial permitia. Contei pra Aleeza que tava me mexendo. Ela disse "Shane" de um jeito que significava tanto "tá bom" quanto "por favor não" ao mesmo tempo, que é uma coisa que ela faz e que, em qualquer outra circunstância, eu acho fofo.

Encontrei o armário de suprimentos no fim da parede esquerda, uma porta padrão trancada que não tava trancada, e entrei e fechei atrás de mim, e tô aqui desde então.

O armário tem mais ou menos o tamanho de um banheiro grande. Prateleiras nas três paredes, as prateleiras cheias do estoque padrão de um armário de suprimentos corporativo — papel pra impressora, cartuchos de toner, produtos de limpeza, a infraestrutura física miscelânea da vida de escritório. Não tem fonte de luz, e tô usando a lanterna do celular, que tô tentando usar com parcimônia pra economizar bateria. A porta não tem tranca por dentro. Tô segurando ela fechada com minhas costas contra ela e os pés apoiados na base da prateleira oposta, e quero ser honesto que essa não é uma posição que eu consigo manter pra sempre.

Aleeza tem falado comigo sem parar. Ela não tem informação útil — Zac não chegou, a empresa de gerenciamento não atende retornos, ela ligou pro 911 e eles pegaram o endereço e disseram que tão mandando alguém, e ela não sabe quando. Ela tá falando porque o silêncio é pior, e ela sabe disso, e eu sei disso, e a gente tá junto há quatro anos, e ela sabe exatamente o que eu preciso agora, que é o som da voz dela me contando coisas normais. Então ela tem me contado sobre o dia dela, sobre o livro que tava lendo quando eu liguei, sobre o restaurante que ela quer tentar no sábado, e eu tenho escutado, e o normal disso tem sido a única coisa mantendo minha respiração regular.

Quinze minutos atrás, o som passou bem do lado de fora da porta do armário.

Senti mais do que ouvi — uma vibração na porta contra minhas costas, uma mudança na pressão do ar no quartinho pequeno, o cheiro orgânico doce intensificando até ser tudo que eu conseguia cheirar, e tive que respirar pela boca pra não engasgar. Parou do lado de fora da porta. Sei que parou porque a vibração ficou estacionária, uma presença constante do outro lado de uma porta que eu tava segurando fechada com o peso do meu corpo e pés apoiados e mais nada. Aleeza tinha ficado quieta. Não sei se eu parei de responder pra ela ou se ela ouviu algo na minha respiração que disse pra parar de falar. A gente ficou os dois em silêncio. A coisa do outro lado da porta ficou em silêncio. A luz errada e plana zumbia.

Ficou do lado de fora da porta pelo que meu celular diz que foram quatro minutos e nove segundos. Pareceu bem mais. Aí a presença se mexeu, e o cheiro começou a diminuir, e a vibração se afastou pela parede, e eu respirei pelo nariz de novo, e Aleeza disse "Shane" bem baixinho, e eu disse "ainda aqui", e ela fez um som que não era palavra.

Isso foi há onze minutos. Não ouvi desde então, mas o cheiro não voltou ao normal, e eu não acho que foi longe.

Meu celular tá com vinte e dois por cento. Desliguei a lanterna pra economizar bateria, e tô digitando no escuro com o celular virado pra baixo contra minha perna entre as frases pra a luz da tela não vazar por baixo da porta.

Quero dizer umas coisas enquanto ainda tenho bateria.

Aleeza — sei que você vai ler isso. Sei porque você vai querer saber tudo, e isso é tudo. Preciso que você saiba que os quatro anos foram os melhores quatro anos, e o restaurante no sábado parece ótimo de verdade, e eu quero ir, e pretendo ir, e Zac ou a polícia ou alguém tá vindo, e isso vai virar uma história que a gente conta em jantares pra sempre do jeito que coisas terríveis viram engraçadas com distância suficiente, e eu vou ficar bem.

Tô te dizendo isso porque preciso te dizer isso. Tô te dizendo isso porque a alternativa não é algo que eu tô disposto a digitar.

Pra quem mais tá lendo isso — Calloway Building, centro de Pittsburgh, décimo quarto andar, tem um andar entre o doze e o quatorze que não aparece em nenhum diagrama do prédio, e eu tô nele, e algo tá nele comigo, e eu não sei o que é, e não sei o que quer, mas sei que tá aqui há mais tempo que o prédio, e sei que o prédio foi construído em volta dele em vez do contrário. E sei isso por causa do que encontrei nas prateleiras desse armário de suprimentos quando liguei a lanterna pela primeira vez, e que não contei pra Aleeza porque não tem nada útil que ela possa fazer com a informação.

Na prateleira do meio, entre os cartuchos de toner e as resmas de papel pra impressora, tem fotografias. Dezenas delas. Polaroids na maioria, alguns formatos de impressão mais antigos, abrangendo o que parece décadas de tecnologia fotográfica. Todas do mesmo assunto — esse andar, esses cubículos, esse carpete, essa luz errada e plana — e em cada uma tem uma pessoa. Pessoas diferentes, eras diferentes, roupas diferentes. Todas elas na mesma posição. Todas contra a parede do lado do elevador com as costas pressionadas nas portas e os rostos virados pra câmera com a mesma expressão, que é a expressão de alguém que olhou pra mesma coisa tempo o suficiente pra olhar parar de ser escolha.

Nenhuma das fotos tem data. Nenhuma tem nome no verso. São quarenta e uma, e contei duas vezes, e coloquei de volta na prateleira exatamente onde encontrei porque mexer na arrumação delas pareceu um erro que eu não podia me dar ao luxo.

Quatorze por cento.

O cheiro tá ficando mais forte de novo.

Aleeza, eu te amo. O restaurante no sábado. Tô falando sério.

Vou parar de digitar agora e segurar a porta.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon