sábado, 21 de março de 2026

A Sala de Tempo Morto

Queria compartilhar uma história da época em que eu era criança que ainda me perturba até hoje.

A gente tinha uma sala na casa que era diferente de todas as outras. Não era diferente na aparência, só no que era usada pra fazer. Ela tinha só um propósito: nos punir quando a gente se comportava mal.

Meu irmão e eu odiávamos aquela sala. Mas não pelo motivo que você pode estar pensando. Pra gente, era só o lugar chato e irritante onde a gente tinha que ficar em pé quando nossos pais tavam putos da vida com a gente. E sim, a gente geralmente merecia. A gente odiava, mas conforme fomos crescendo, sabíamos que era justo.

Só que era escura demais.

Não era uma escuridão de "criança com medo do escuro". Não era uma escuridão de "a luz do corredor tá apagada". Essa era o tipo de escuridão que parecia antinatural. Do tipo que a maioria das pessoas nunca experimenta.

Na nossa casa, ela era só chamada de "a sala de tempo morto". Ficava no final do corredor, enfiada entre o armário de roupa de cama e o quarto de hóspedes, uma porta simples com uma maçaneta simples e nada de especial nela. Sem placa de aviso. Sem tranca. Se você não soubesse pra quê servia, ia achar que era um depósito ou um quarto de hóspede. Mas meu irmão e eu sabíamos. Se a gente se comportasse mal, respondesse mal, roubasse biscoitos, brigasse alto demais ou batesse uma porta, mandavam a gente pra lá.

"Sala de tempo morto", minha mãe dizia.

Luzes apagadas. Porta fechada. Essa era a punição.

E quando você é pequeno, faz sentido. A escuridão incomoda. Te faz se comportar. Te faz se sentir pequeno. Minha mãe nunca gritava. Meu pai nunca contava até três. Eles nunca davam sermão. Nunca nos arrastavam pelo braço. Só apontavam.

E a gente ia.

Por um tempo bom, parecia mesmo normal. Tipo uma regra rígida-mas-justa numa casa rígida-mas-justa. Se meu irmão entrava primeiro, eu colava a orelha na porta e sussurrava: "Quanto tempo você tem?". Às vezes ele sussurrava de volta. Às vezes não. Às vezes eu ouvia ele fungando. E às vezes eu não ouvia nada.

Aí era minha vez. Mamãe ou papai apontavam, e eu ia pra sala de tempo morto. Eu abria a porta e espiava lá dentro toda vez, dando uma chance pros meus pais mudarem de ideia. Mas claro que eles nunca mudavam.

Espiar a sala de fora sempre parecia esquisito. As únicas áreas visíveis eram onde a luz do corredor vazava pra dentro. Não tinha janelas, nem móveis. Não tinha nada lá dentro exceto uma luminária de pé alta. Ela ficava no canto da sala, com sua cúpula amarela grossa e escura. Sempre mal dava pra ver no breu.

Eu entrava e fechava a porta, deixando a escuridão me engolir. Aí ficava lá em pé com os braços ao lado do corpo, encarando o nada, contando na cabeça do jeito que crianças fazem quando querem que o tempo passe mais rápido.

Dez Mississippi. Vinte Mississippi. Trinta Mississippi.

Eu nunca pensei em questionar por que a sala era sempre tão mais escura que o resto da casa, por que nenhuma luz vazava pelas frestas da porta. Nunca me perguntei por que a porta fechava com um clique suave mas distinto mesmo sem tranca. Nunca perguntei por que a luminária no canto era a única coisa na sala. E nunca perguntei por que eu não podia ligar ela. Porque as regras eram simples. Escuridão era a punição. Você não liga a luz.

E quando você é uma criança pequena, regras parecem física. Tipo gravidade. Tipo algo que o mundo é feito. Elas são inabaláveis. Mas aí você cresce. E as regras começam a parecer menos sólidas. Menos como destino... e mais como escolhas.

Eu devia ter uns dez ou onze anos na primeira vez que decidi que tava de saco cheio de seguir o jogo. Foi por algo bobo que me mandaram pra lá; acho que responder mal. Lembro do calor no meu rosto, da satisfação afiada de ter dito o que disse, e aí a punição imediata.

"Sala de tempo morto."

Eu marchei pelo corredor como se a casa fosse minha e as regras fossem minhas, joguei a porta aberta e entrei com o queixo erguido. A porta fechou atrás de mim. A escuridão me engoliu. E eu esperei meus olhos se ajustarem. Mas não se ajustaram. Nunca se ajustavam. Nem um tiquinho de luz vinha por baixo da porta como devia. Isso eu nunca tinha considerado antes, mas agora parecia estranho.

Deveria ter sido o primeiro sinal vermelho.

A escuridão sempre amolece depois de uns segundos. Até de noite, você geralmente consegue distinguir formas. Uma janela, uma porta ou até suas próprias mãos. Mas naquela sala, não. Não era só escuridão. Era um vazio. Tipo meus olhos abertos, mas o sol inteiro tinha sido desligado. Eu fiquei lá, irritado. Desafiador.

Aí, devagar, a curiosidade começou a rastejar pela nuca. Tinha uma luminária lá dentro. Eu sabia que tinha. Sempre via ela quando a porta tava aberta. Então por que eu não conseguia nem ver o contorno dela? Essa foi a primeira vez que deixei minha mente vagar de verdade naquela sala.

Eu estendi as mãos e comecei a tatear o ar na frente, pisando com cuidado. Logo meus dedos roçaram uma parede. Deslizei eles ao longo dela, me movendo de lado até achar a cúpula da luminária, tecido áspero e empoeirado no topo. Lá tava o interruptor, uma rodelinha no soquete.

Meu coração bateu forte contra as costelas uma vez. Não era medo exatamente, mais o frio na barriga de quebrar uma regra. O frio na barriga de fazer minha própria escolha. Talvez a primeira escolha de verdade que eu já tinha feito por mim mesmo.

Eu girei. Clicou, e ouvi um zumbido leve. Mas nada mais mudou. Eu fiz careta pro vazio, piscando forte. De novo. Aí de novo, como se meus olhos estivessem grudados. Ainda nada.

Uma gota fria de incerteza se formou na minha barriga. A luminária tinha clicado. Eu senti. Ouvi. Então por que ainda tava perfeitamente preto? Eu estendi a mão de novo e tateei o soquete. Talvez a lâmpada tivesse sumido. Talvez estivesse solta. Ou talvez tivesse queimado.

Meus dedos acharam a lâmpada, e eu pressionei as pontas dos dedos de leve no vidro, segurando ali. Um segundo. Dois. E aí puxei a mão tão rápido que quase tropecei. A lâmpada tava quente. A luminária tava ligada. E eu ainda não via porra nenhuma.

Minha boca secou. Confusão me dominou. Meu primeiro pensamento foi algo infantil e ao mesmo tempo aterrorizante de um jeito real: E se eu não consigo mais ver nada? E se eu fiquei cego?

Eu engoli em seco e levantei as mãos na frente do rosto.

Nada. Balancei os dedos. Ainda nada. Fechei os olhos com força e abri de novo, bem abertos, como se pudesse forçar a luz de volta. Mas a escuridão continuou.

Minha respiração ficou mais alta no silêncio. Mais rápida, enquanto a confusão virava pânico. Mas eu fiz careta de novo quando notei algo. O ritmo da minha respiração não batia mais direito. Soava errado.

Eu prendi a respiração.

Mas a outra não.

Uma segunda respiração. Um inspirar fraco e úmido...

...atrás de mim.

Eu me virei, mas o som ainda veio de trás. Minha pele arrepiou. Virei de novo, mais rápido. Ainda atrás de mim. Não tava se movendo pela sala. Não tava ecoando. Só tava... lá. Bem atrás de mim. Respirando.

Minha respiração parou, e eu ouvi claro. No começo era lenta, tipo alguém tentando ficar quieto. Aí acelerou.

Inspira. Expira. Inspira. Expira.

Mais perto que perto. O tipo de perto que você sente nos ossos. Eu queria gritar. Queria berrar "Mãe?" ou "Pai?" ou até o nome do meu irmão. Mas algo em mim sabia que não era eles.

Aí senti uma pressão tocando meu rosto. Macia no começo, tipo um cobertor sendo mexido. Não como se tivesse sido colocado ali agora, mas como se sempre tivesse estado ali e só tivesse se mexido um pouquinho. Aí senti mais firme, específico. Duas formas pressionadas nos meus olhos.

Não pano. Não capuz.

Mãos.

Duas mãos, uma cobrindo cada olho, palmas coladas em mim.

Meu corpo inteiro travou. A respiração tava bem no meu ouvido agora, rápida e ansiosa, tipo o que quer que estivesse atrás de mim tava empolgado por eu finalmente ter notado.

Empolgado... ou puto da vida.

Eu levantei minhas próprias mãos e agarrei as que cobriam meus olhos. Elas pareciam erradas. Frias demais. Lisas demais. Não pele, não exatamente. Mais tipo borracha que ficou de molho em água gelada.

Eu puxei e torci, pânico subindo como um grito pela garganta, mas as mãos não saíram do lugar. Elas grudaram em mim com uma força que não fazia sentido pra algo com dedos tão finos. Eu comecei a me debater, jogando os cotovelos pra trás por cima do ombro, tentando acertar o que tava grudado em mim.

No momento que meu cotovelo acertou algo sólido atrás da minha cabeça, aquilo gritou. Não era um som que eu já tinha ouvido antes. Um som tipo metal arranhando metal. Tão alto que meus ouvidos zuniram na hora. Tão agudo que parecia estar cortando meu crânio ao meio.

Eu gritei, puro reflexo, dor e terror jorrando de mim, e joguei os braços pra trás com mais força, arranhando, socando às cegas o que tava grudado em mim. Ele respondeu com uma mordida monstro, dentes afiados cravando na minha pele onde o pescoço encontra o ombro. Senti um calor rasgante de repente, tipo alguém tinha enfiado uma fileira de agulhas na minha pele e puxado. Eu uivei, e meus joelhos dobraram.

Meu mundo inteiro ainda era preto, aquelas mãos frias agora começando a cavar nos meus globos oculares, o grito furando minha cabeça. Minha força tava me abandonando. Minha garganta ficou rouca enquanto eu gritava até cortar de vez. Sumiu.

Na ausência do meu próprio terror, eu ouvi o zumbido da luminária, agora bem mais alto que quando eu liguei pela primeira vez.

Eu tentei cambalear pra frente, bater na porta, sair. Mas ainda tava grudado no meu pescoço. O zumbido ficou ainda mais alto. Eu comecei a sentir tontura, meu corpo balançando, e aí...

A porta voou aberta.

Eu ouvi ela bater e se chocar na parede. Ainda não via nada. Mas sentia. Tipo calor no rosto. Tipo o ar mudando.

Passos vieram, rápidos e pesados. Sem suspiro. Sem grito. Sem voz nenhuma. Só movimento. Aí um impacto sólido bem atrás da minha cabeça. As mãos foram arrancadas dos meus olhos num instante, arranhando meu rosto. A coisa gritou, o som cortando num guincho estrangulado, e sumiu tipo eco num cano.

Eu desabei pra frente no carpete, ofegando, arranhando o rosto, o pescoço queimando onde fui mordido. Pisquei e pisquei e pisquei, mas a escuridão ficou.

Eu não via.

Ainda não via.

Aí senti braços ao meu redor. Minha mãe me puxou contra o peito dela tipo tentando me blindar da sala em si. As mãos dela eram quentes. Humanas. Reais.

"Tá tudo bem", ela disse, e a voz dela tava calma de um jeito que não batia com o que tinha acabado de rolar. "Tá tudo bem. Tá tudo bem. Você tá bem."

Eu tremia tão forte que meus dentes batiam.

"Eu não consigo ver", eu engasguei. "Mãe, eu não consigo ver..."

"Eu sei", ela disse baixinho, me balançando. "Eu sei. Só respira. Só respira."

O corredor cheirava a detergente de roupa e jantar. Cheiros normais. Cheiros seguros. A camisa da minha mãe pressionada no meu rosto. O coração dela batia firme, tipo isso não era surpresa. Tipo ela tava esperando na porta.

Eu fechei os olhos com força de novo e forcei abrir. E de repente... Luz. O corredor voltou ao lugar. O carpete. As paredes. A porta aberta. O rosto da minha mãe acima de mim, pálido mas composto, os olhos dela fixos em mim e não na sala. Eu solucei e me agarrei nela tipo um afogado.

Atrás dela, por cima do ombro, eu via agora pra dentro da sala de tempo morto. Ela tinha me puxado pra fora sem eu perceber. Dá pra ver claro agora lá dentro. A luminária tava ligada. A cúpula brilhava. Mas o interior da sala ainda parecia... errado.

Não escuro mais. Só... mais fundo que devia ser. Tipo os cantos não acabavam onde as paredes deviam acabar. Tipo a sala tinha mais espaço dentro dela do que a casa permitia. Mas conforme eu piscava, a visão borrando e clareando, a sala pareceu voltar ao normal. Era normal de novo.

Minha mãe se mexeu, bloqueando minha visão. A mão dela pressionou de leve na nuca, e eu me encolhi da dor. Ela não perguntou o que rolou. Não checou a luminária. Não procurou o que me mordeu. Só me segurou e sussurrou que tudo tava bem, de novo e de novo, até minha respiração desacelerar e meu choro virar soluços silenciosos.

Quando eu finalmente me afastei o suficiente pra olhar pra ela, esperava raiva. Confusão. Medo. Mas ela só me deu uma expressão cansada e ensaiada. Do tipo que adultos usam quando uma tempestade que eles esperavam finalmente chega.

"Por que essa sala é assim?", eu sussurrei.

O polegar da minha mãe roçou minha bochecha, limpando uma lágrima.

"Porque", ela disse baixinho, "funciona."

Foi só isso. Sem explicação. Sem conforto além dos braços e da voz dela. Ela me carregou pra longe da porta, e quando olhei pra trás uma última vez, ela fechou a porta da sala de tempo morto com o mesmo clique suave.

Eu não contei pro meu irmão o que rolou, e ele não perguntou. Depois disso, a marca da mordida no meu pescoço cicatrizou numa meia-lua pequena que ainda dá pra ver se você olhar de perto. A sala de tempo morto ficou no final do corredor. A luminária ficou no canto. A regra ficou a mesma.

Luzes apagadas. Porta fechada.

E vou te dar o finalzinho bonitinho que todo mundo quer, porque é verdade.

Eu nunca mais me comportei mal.

Ela tava certa.

Funciona.

Meu Colega de Quarto é uma Aranha-Caçadora

Eu odeio aranhas. Não são minhas favoritas. Mas também não acredito em matar uma quando eu vejo dentro da minha casa. Ou, pelo menos, eu não acreditava… por um tempo.

Desde pequeno, me ensinaram a não matar insetos. Só removê-los de casa de um jeito que não os machucasse. Normalmente isso significava pegar um copo e um jornal, capturar a criatura e depois levá-la pra fora, até um arbusto, onde ela voltava pro habitat natural. Minha mãe era quem insistia que esse era o único jeito de lidar com visitantes indesejados em casa. Meu pai não ligava nem um pouco, mas ainda assim entrava na onda da minha mãe quando ela estava por perto. Eu sempre achei que minha mãe era boa demais por causa disso, mas suponho que tudo bem. Eu só queria que isso não valesse pra aranhas.

Um dia, eu vi uma viúva-negra dentro de casa. Eu entrei em pânico. Só de olhar pra ela, minha pele já se arrepiava, mesmo ela apenas ficando ali na teia, sem fazer nada. Eu sentia que, a qualquer momento, ela podia me ver como um pedaço enorme e delicioso de carne — algo que ela poderia “colher” por anos — e então tentar me atacar. Eu sei que isso não é verdade pra nenhum tipo de aranha, mas era aquele medo irracional que às vezes me deixava paralisado, travado. Aí minha mãe via que tinha uma viúva-negra dentro de casa, pegava com as próprias mãos e colocava com cuidado no jardim, como se ela não estivesse segurando a própria morte.

— Viu? Não tem nada com o que se preocupar. Só lembre que ela tem mais medo de você do que você dela — minha mãe dizia, com um sorriso doce no rosto.

Minha mãe é maluca.

Eu sei com certeza que, se ela fosse picada por uma dessas coisas, a gente teria que correr pro pronto-socorro imediatamente pra salvar a bunda maluca dela. Ela é uma querida e tudo, mas eu nunca vou entender por que ela pensa desse jeito. Mesmo sem entender o amor da minha mãe por esses animais, eu ainda obedecia a ela e à loucura dela. Acho que virou hábito.

Depois da faculdade, eu me mudei pra Los Angeles. Foi lá que eu passei a topar com todo tipo de bicho rastejante novo que a cidade tinha a oferecer no meu apartamento de um quarto. Normalmente era uma mariposa ou uma barata, algo que eu não me estressava tanto. Eu via eles na cozinha ou no banheiro e, lá no fundo da cabeça, eu ouvia minha mãe: “Só lembre que ele tem mais medo de você do que você dele.” Então eu pegava um copo no armário e uma pasta que estivesse por perto e removia o inseto com cuidado do meu apartamento. Eu geralmente soltava eles num arbusto lá embaixo, no térreo, antes de subir arrastado de volta até o terceiro andar, onde ficava o meu apartamento. Era cansativo, mas hábito de infância é difícil de quebrar. Com sorte, com todos os insetos que esse lugar tinha pra oferecer, eu só ficava feliz por não topar com uma aranha… até alguns meses atrás.

Era uma manhã de segunda-feira no inverno. Eu acordei por volta das sete, como todos os dias, pra me arrumar pro trabalho. Eu tava meio de ressaca da noite anterior e tentei ao máximo colocar a cabeça no lugar enquanto cambaleava até o banheiro. Liguei o chuveiro, esperando que o vapor ajudasse na dor de cabeça. Eu sabia que não ia funcionar, mas enfim. Eu tinha me divertido no karaokê. Quando terminei de me secar, fui até o armário do banheiro e abri. O que eu vi me fez dar um pulo pra trás e cambalear, batendo na porta.

No meu armário, ali no meio dos frascos de remédio, estava uma aranha-caçadora. Ela tinha só uns dois ou três centímetros de comprimento, e as pernas se curvavam como galhos de uma árvore morta. Os olhos encaravam os meus como se soubessem de alguma coisa, como se ela estivesse medindo meu próximo movimento. Eu xinguei baixinho e saí do banheiro. Vesti uma calça rápido e peguei um copo na cozinha e uma pasta. Corri de volta pro banheiro e olhei pro armário aberto… só pra ver que a aranha tinha sumido. Ela tinha saído andando.

— Pra onde ela foi?

Eu olhei o banheiro com cuidado do lado de fora do batente da porta, tentando ver pra onde aquela coisa maldita tinha ido. Vasculhei a pia e o vaso e não vi nenhuma “perna de árvore morta”. As paredes eram todas brancas e lisas. Dei uma espiada na banheira e vi que estava vazia e ainda molhada do meu banho. Minha calça de moletom e minha camiseta branca ainda estavam no chão. Com a mão nervosa e trêmula segurando a pasta, eu cutuquei as roupas pra ter certeza de que aquela coisa feia não estava escondida. Pra meu desespero, ela pulou pra fora e começou a subir rápido pela pasta. Eu instintivamente joguei o objeto pro outro lado do banheiro antes que ela corresse pelo meu braço.

— MERDA! MERDA! MERDA!

Eu recuei, meus olhos indo de um lado pro outro, tentando ver pra onde a aranha-caçadora tinha ido. Ela rastejou pela parede e parou no meio do caminho pro teto. Eu levantei o copo com a abertura apontada pra aranha na parede. Cheguei mais perto e ela subiu mais em direção ao teto. Depois de alguns passos, eu estava perto o suficiente pra prender a aranha, mas eu congelei. Minha mão não se mexia, com medo de ela fugir, ou de fazer alguma coisa imprevisível. Meu coração parecia querer sair do peito e gotas frescas de suor desciam pela minha têmpora. A última coisa que eu queria era que esse monstro idiota de dois ou três centímetros pulasse em mim. Isso era ridículo; eu sou um homem adulto surtando por causa de uma aranha.

Eu decidi recuar e abaixar o copo. A aranha não se mexeu. Peguei minha escova e minha pasta de dente e saí do banheiro devagar, mantendo os olhos na aranha na parede.

— Tá, beleza, você ganhou — resmunguei, me sentindo patético. — Pode ficar por enquanto. Mas quando eu voltar, eu vou te despejar! — eu declarei, apontando pro bicho.

Eu saí e continuei minha rotina da manhã antes de ir trabalhar.

Quando voltei do trabalho, inspecionei o banheiro de novo e vi que a aranha tinha sumido. Eu torci pra ela ter ido embora de vez e que aquilo fosse o fim. Tudo aparentemente voltou ao normal, sem perder o ritmo. Com o tempo, eu até esqueci que tinha tido uma aranha no meu apartamento. Passou uma semana sem nenhum sinal de atividade. Nem uma teia dava pra achar nos cantos altos dos cômodos. O medo passou e eu continuei a vida como se a aranha nunca tivesse estado ali. Só que eu deveria ter me preocupado mais. Eu não percebi na época, mas haviam algumas novidades. Alguns chamariam de novidades positivas. Pelo apartamento inteiro, havia uma falta surpreendente de qualquer outro inseto.

Olhando agora, faz sentido: uma aranha entra no apartamento, o cara não mata nem remove a aranha, e a aranha mata todos os outros insetos. Pra algumas pessoas isso é uma troca justa. Baratas são muito irritantes; então ficar semanas sem ver nenhuma parecia uma bênção. Eu sinceramente não pensei muito sobre isso. Acho que ninguém pensaria. Eu só fui vivendo, sem saber que provavelmente tinha uma aranha por aí trabalhando dia e noite como controle de pragas do meu prédio.

Eu deveria ter ido embora dali na mesma hora.

A primavera chegou. O sol entrava pelas persianas do meu quarto e eu fui levantando devagar. Tinha algo diferente naquela manhã. Era um cheiro. Salgado. Tinha algo cozinhando. Meus olhos arregalaram quando uma realização repentina veio à cabeça:

“Eu deixei o fogão ligado!”

Eu saltei da cama e corri pra cozinha. Tinha um extintor de incêndio embaixo da pia; se eu conseguisse chegar nele a tempo, eu podia apagar o fogo. Entrei na cozinha. Não tinha fogo. Tinha alguma coisa cozinhando no fogão.

Uma aranha-caçadora estava pendurada no teto.

E ela era, sem dúvida, diferente. Agora tinha talvez uns quarenta centímetros de comprimento. Pelos marrons saíam do corpo inteiro. Duas pernas de trás se mantinham firmes numa teia suspensa, enquanto outras duas seguravam uma espátula. Ela virou alguma coisa na boca do fogão.

Eu fiquei ali, tentando compreender o que eu estava vendo. É uma aranha, certo? Por que ela tá tão grande? Por que ela tá cozinhando? Quem ensinou ela a fazer isso?

O sangue pareceu sumir do meu corpo quando a aranha virou lentamente — de um jeito ameaçador — na minha direção. A parte de cima do “tronco” dela se ergueu pra mim e oito olhos negros, vazios, se cravaram nos meus. Eu queria correr, mas minhas pernas não se mexiam. Eu era uma estátua. As presas dela se curvaram. Num instante, ela pareceu estremecer, as pernas se abrindo e acenando em todas as direções. Ela estava animada em me ver. Aquilo tinha que ser um sonho. Um pesadelo.

Uma voz suave e aguda saiu da boca dela:

— O café da manhã tá pronto!

Com toda a razão do mundo, eu desmaiei.

Quando recobrei a consciência, eu estava sentado numa cadeira na mesa de jantar. Um prato tinha sido colocado na minha frente. Era um sanduíche de queijo quente. Olhando pro sanduíche, eu conseguia ver que tinha sido feito com muito cuidado. Queijo derretido e cremoso entre duas fatias bem tostadas de pão branco. Cebolinha verde salpicada por cima como enfeite. Eu nem compro cebolinha. Minha boca encheu de saliva por causa do aroma de queijo e manteiga enchendo minhas narinas. Porém, o prazer de sentir o cheiro de uma comida bem feita era diminuído pelo horror que estava diante de mim. A aranha-caçadora pendia da teia e me encarava. Eu encarei de volta. Fiquei imóvel, como um cervo no farol de um carro… ou como uma mosca na teia.

— Você se machucou? — ela perguntou, naquela voz aguda.

Essa coisa tava falando comigo. E fez um sanduíche de queijo quente!

— O quê? — foi tudo o que eu consegui sussurrar.

— Você. Se. Machucou? — ela repetiu.

— E-eu… — eu passei a língua nos lábios secos. — Acho que sim.

Uma pausa. Eu olhei pros olhos negros dela, sem saber se eu tinha piscado sequer uma vez. Um instante depois, uma perna longa e peluda se estendeu e empurrou o prato na minha direção.

— Come — ela insistiu.

Tudo em mim dizia pra eu sair correndo dali. “Eu sequer chego na porta antes dela me pegar nas presas?”, eu me perguntei. Minha mão veio até a mesa e pegou o sanduíche de queijo quente. Eu mordi com hesitação. Ela me observava enquanto eu comia.

Pra minha surpresa — e eu odeio admitir — aquele foi o melhor sanduíche de queijo quente que eu já comi. O pão tinha um salzinho leve e era amanteigado, o queijo era grosso e tinha derretido perfeitamente. Devia ter uns quatro tipos de queijo diferentes ali dentro. Eles se misturavam e criavam uma explosão de sabor, forte e salgada. O queijo esticou tanto que eu tive que pegar com a boca. Em quatro mordidas, o sanduíche acabou.

A criatura não se mexeu, e os olhos dela não saíram de mim. Quando eu terminei, ela continuou me estudando.

— E então? Como ficou? — ela perguntou.

Sem saber o que dizer, eu escolhi ser honesto:

— Ficou bom.

A criatura ficou parada.

— Obrigado… eu acho.

A criatura se sacudiu com força; todas as pernas tremiam e se mexiam descontroladas, como se ela convulsionasse de um jeito totalmente errático. Eu me enrijeeci. Pensei: “Ótimo. Ela me engordou e agora vai me comer!” Eu fechei os olhos esperando o pior, mas a aranha parou de tremer. Eu olhei de novo e agora ela estava com quatro pernas pra cima, como se estivesse louvando o Senhor.

— O ingrediente secreto é queijo!

Eu fiquei em silêncio.

— Eu vou fazer mais — ela disse, enquanto subia pro teto e voltava ao fogão. As pernas se mexiam com tanta velocidade que me assustou.

Eu me levantei da cadeira, finalmente conseguindo me mexer, e fiz menção de ir até a porta.

— NÃO… não, eu… eu na verdade preciso ir pro trabalho.

Ela me olhou do teto e esfregou os palpos (os “bigodinhos”) como se estivesse pensando em algo.

— Domingo… — ela disse.

Ah, ótimo. Ela tem um calendário.

— Isso mesmo, eu trabalho aos domingos — eu não trabalhava. — Preciso ir pro escritório, foi mal.

Peguei minha bolsa e minhas chaves no gancho ao lado da porta e saí sem dizer mais nada. Eu corri tão rápido que nem o Usain Bolt me pegaria. Saí do prédio ainda de pijama e sem sapatos.

Quando eu me afastei, saquei meu celular (por sorte eu não tinha esquecido) e liguei pra administração do prédio. Eu disse que eu tinha um problema ENORME de aranha no meu apartamento. A pessoa do outro lado da linha começou a fazer perguntas idiotas.

— Quando você começou a notar aranhas? — perguntou uma mulher idosa, com voz anasalada, chamada Barb.

— Aconteceu AGORA! Nesse exato segundo! Eu preciso que vocês joguem uma bomba nuclear no meu apartamento até essa merda sumir! E também: era só uma aranha. Uma aranha só, enorme e nojenta. Me liga quando terminar!

— Sinto muito, vou ter que contatar a manutenção na segunda. Eles sempre folgam aos domingos. Se era só uma aranha, por que você não mata ou não tira com um copo?

— VOCÊ TÁ ME OUVINDO?! ESSA FILHA DA PUTA TEM MAIS DE TRINTA CENTÍMETROS! — eu gritei no telefone. — EU NÃO TENHO COPOS DO TAMANHO DO PÉ-GRANDE, BARB!

— Bem, não precisa ser tão grosseiro. Eu vou ligar pra eles e o mais cedo que dá pra dedetizar seu apartamento é na segunda.

— Que horas na segunda?

— Normalmente eles chegam por volta das onze, então vão estar aí até o meio-dia.

— Isso não é cedo o suficiente, Barb. Tem como agilizar? É uma emergência.

— Ai, querido, uma aranha não é emergência. Eles vão dedetizar amanhã por volta do meio-dia, e é tudo que eu posso fazer.

— Aaaah… você não tá entendendo, Barb. Não é só uma aranha. É uma aranha-caçadora… e ela fala.

A Barb desligou na minha cara, e eu fiquei na rua sem saber o que fazer.

Pelo resto do dia, fiquei na casa de um amigo. Quando perguntaram por que eu tava andando por aí de pijama, eu contei a verdade. Eu disse que uma aranha-caçadora gigante tinha feito um sanduíche pra mim e falado comigo. Eles só riram. Ninguém acreditou em mim. Não importava. Talvez eu estivesse louco; talvez fosse algum pesadelo absurdamente realista que vazou pra vida real. Seja o que fosse, meu próximo passo era esperar até amanhã e deixar o meio-dia passar. Eu não fui trabalhar; eu só esperei.

A segunda-feira chegou, e já era por volta de uma da tarde quando eu girei a chave do meu apartamento. Eu mal conseguia respirar no momento em que abri a porta. Eu não entrei de imediato, embora eu tivesse um e-mail de confirmação dizendo que a manutenção entrou e borrifou o produto duas vezes. Eu não sabia se isso seria suficiente, mas eu tinha que ver com meus próprios olhos. No e-mail não dizia se eles tinham visto a aranha-caçadora gigante. Com tudo isso, eu torci pra ela ter ido embora e não estar apenas escondida. Era isso que eu temia.

Entrei e deixei a porta bem aberta. Olhei ao redor pra ver se tinha alguma anormalidade. Eu meio que esperava ver a criatura escondida no armário ou pendurada no teto de novo. Só que, olhando o apartamento, eu não vi nenhum sinal de que uma aranha tinha estado ali. Também notei que minha cama estava arrumada, a louça estava lavada, o pó tinha sumido das prateleiras. A roupa tinha sido lavada e guardada dobradinha na cômoda. Não tinha aranha, mas parecia que um time de faxineiras tinha invadido meu apartamento e limpado cada canto. Isso fazia parte do serviço de manutenção? Eles dedetizam e depois limpam? Isso não fazia o menor sentido.

Alguém esteve no meu apartamento. Alguma coisa esteve no meu apartamento. Se a aranha consegue fazer um sanduíche de queijo quente perfeito, será que ela também consegue lavar louça, arrumar cama e dobrar roupa? Seja o que fosse, era pra ela estar morta. Certo?

— Bem-vindo de volta.

Um tec-tec de pernas bateu na parede quando a criatura veio contornando até chegar em mim. Eu congelei e não mexi um músculo. As pernas vieram de cima e oito olhos encontraram os meus. Ela cheirava surpreendentemente bem, como se tivesse rolado em tulipas. Os pelos espetavam pra todo lado e os palpos se esfregavam, animados. Meus pulmões pesaram e meu coração disparou. A qualquer momento eu podia desmaiar de novo, mas, surpreendentemente, eu me mantive de pé.

— Como foi o trabalho?

— Trabalho? — eu disse, seco, com a voz rouca.

Ela continuou encarando.

— Ah… sim. O trabalho foi ok. Eu consegui terminar todas as minhas tarefas a tempo.

Ela fez um som de estalo que parecia uma risadinha.

— Fico feliz em ouvir isso.

A criatura subiu e foi até a cozinha. Com as pernas, abriu a geladeira e pegou alguns ingredientes. Pegou um copo do armário e colocou suco nele.

— Bebe. Eu vou fazer o almoço.

Tudo em mim dizia pra eu correr. Sumir daquele monstro gigante e me mudar. Eu não sabia se ela me seguiria ou se tentaria me matar antes que eu conseguisse sair. Era óbvio que a dedetização não tinha funcionado. Se aquilo fosse morrer, talvez tivesse que acontecer de outro jeito. Olhei pro lado e vi uma vassoura perto do armário. Ela estava mexendo no sanduíche de queijo quente no fogão, sem prestar atenção em mim. Eu me imaginei indo até a vassoura e batendo com força nela até ela parar de se mexer.

Só que não foi até eu ter a vassoura na mão que eu pensei no apartamento — ou melhor, no estado em que ele estava. As roupas dobradas e guardadas, a louça lavada, a cama feita. Um monstro não faria tudo isso, ainda mais por um estranho. Mesmo naquele momento, de um jeito sinistro, ela me serviu uma bebida, me deu boas-vindas e estava fazendo um sanduíche de queijo quente. E aquele sanduíche de antes tinha sido o melhor da minha vida. Apesar de todos os perigos possíveis em confiar numa aranha-caçadora gigante, eu sentei à mesa até o sanduíche ficar pronto.

— Foi você que arrumou minha cama e dobrou minhas roupas? — eu perguntei, quando ela colocou o sanduíche num prato limpo.

— Sim.

— Como você aprendeu a fazer tudo isso? E a fazer comida? — eu perguntei.

Ela veio e colocou o prato na minha frente. Eu peguei com cuidado e comecei a comer. A maravilha amanteigada e derretida me levou pro céu de novo.

— Eu vi na TV — ela disse, como se fosse óbvio.

— Faz sentido… — não fazia, mas eu realmente não sabia o que dizer.

Eu “empurrei” o sanduíche com o suco e tentei não olhar nos olhos dela.

— Bom, eu quero agradecer… pela cama, pelas roupas… e também pela comida.

A aranha ficou pendurada no teto à minha frente. Eu via pelo canto do olho. Ela não se mexeu muito, mas respondeu:

— Não. Obrigada a você.

Eu me virei pra ela com uma expressão confusa. Por que me agradecer?

— Você não me despejou. Eu vou ser uma boa colega de quarto.

— Colega de quarto?! — eu falei mais alto do que pretendia.

— Sim. Eu não posso te pagar, mas posso ajudar com os insetos, com as tarefas e com a comida.

O que estava acontecendo… eu não conseguia processar direito. Por algum motivo, essa aranha queria morar aqui e estava oferecendo ajuda no apartamento. Era loucura. Isso nunca daria certo, obviamente. Eu não posso ter uma aranha gigante no apartamento.

— Eu não sei se eu consigo te manter aqui… ahn…

— Mary.

— O quê?

— Esse é meu nome. Mary.

— Mary. Entendi… — eu tomei mais um gole do suco. — Olha, Mary, é só que… eu não tenho espaço e…

Eu tentei não deixar as presas dela entrarem no meu campo de visão; elas distraíam.

— Entende… eu não tô procurando colega de quarto agora. Eu não posso te manter aqui. Eu agradeço pela comida e pela… ahn… ajuda no apartamento, mas eu não posso ter uma colega de quarto.

Ela ficou em silêncio. Olhou pra mim e depois desviou o olhar. Pela primeira vez, os olhos dela não estavam cravados em mim. Ela… ficou envergonhada? Ou tava planejando me matar? Eu falei algo errado?

— Você é a primeira pessoa que não tenta me matar.

Que diabos ela tava dizendo? Eu queria ela morta na primeira vez que vi. Mas eu acho que eu realmente não tentei acabar com a vida dela.

— Eu tava esperando que, se eu fizesse um trabalho bom o suficiente, eu pudesse ficar. Eu não tenho problema nenhum em cozinhar pra você, arrumar sua cama ou dobrar sua roupa.

— Esse não é o problema… — eu respondi. Parecia que eu tava chateando ela. Por que eu me importava?

Ficar um mês inteiro sem baratas era muito bom. E a comida era bem feita. Embora eu tivesse a sensação de que ela só sabia fazer sanduíche de queijo quente. E, sinceramente, não faria mal ter alguém fazendo as tarefas por aqui; Deus sabe que eu quase nunca faço. Mas isso significava que minha colega de quarto seria uma aranha-caçadora. Bom… como dá pra ver pelo título, foi isso que acabou acontecendo. Eu não sei se eu fiquei com pena ou se eu genuinamente achei que seria uma boa ideia, mas no fim eu cedi. Esse foi meu segundo erro; o primeiro foi não ter matado ela desde o começo.

— Eu acho que eu posso deixar você ficar por um tempinho.

— Sério? Você tá falando mesmo? — ela virou pra mim e levantou duas pernas, toda empolgada.

Eu me encolhi, porque parecia que ela ia pular em cima de mim. Ela não demonstrou preocupação nenhuma com o fato de eu ainda estar morrendo de medo dela. Eu olhei pro outro lado e falei:

— Só por um tempo. Pensa nisso como um período de teste. Se você não fizer sua parte, eu vou ter que te despejar… entendeu?

Ela sacudiu as duas pernas no ar ainda mais frenética.

— Eu não vou te decepcionar!

Ela pulou com uma velocidade absurda e correu pra cozinha pra começar a lavar a louça.

Eu não sabia, naquela hora, o que o futuro guardava — e como seria muito pior do que eu poderia imaginar. Mas, por enquanto, tudo o que eu sabia era que eu tinha uma nova colega de quarto.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Eu estava cuidando de algo que não era humano...

Sou uma garota de 21 anos e recentemente terminei com meu namorado rico. Desde então, o dinheiro tá curto pra caralho, e eu tava desesperada por um trampo. Rolei o feed do Facebook um tempo, até ver uma família procurando babá. O pagamento era 560 dólares por hora — uma grana preta mesmo! Eu tava faminta por dinheiro! Mandei mensagem pra eles dizendo que queria cuidar do filho deles. Responderam: “Olá! Muito obrigado por entrar em contato. Nossa última babá sumiu do nada depois de cuidar do nosso filho. Vamos escolher um dia aleatório e te perguntamos se você tá livre nessa noite! Atenciosamente, Peter & Carlie!”

Li aquela mensagem com um sorriso no rosto, mas a página inteira deles era esquisita. O filho era loiro com olhos verdes, enquanto o pai e a mãe eram morenos com olhos castanhos. Era meio estranho, mas ignorei. 560 por hora era um baita negócio! Olhei pro relógio e vi que era meia-noite. Larguei o celular na mesa, peguei um travesseiro e apaguei no sofá. De repente, o telefone tocou alto pra cacete, com um monte de notificações spam me tirando do sono pesado.

Minha visão tava embaçada, então estiquei a mão e tateei pra pegar o celular. Era Carlie e Peter me ligando. Mandaram mensagem dizendo que tavam saindo pro restaurante e perguntaram se eu tava livre. Respondi na hora que tava em casa e podia cuidar do filho deles. Bocejei, levantei do sofá, liguei a TV — que iluminou tudo forte o suficiente pra eu ver o quarto inteiro —, peguei meu casaco e fui na geladeira. Era tarde pra caralho e eu tava com sono, mas faria qualquer coisa por grana, então peguei um energético e entornei goela abaixo.

Joguei a lata no sofá, abri a porta, virei o tapete e peguei as chaves do carro do chão. Minhas botas batiam forte nas pedras do caminho, e uma sensação esquisita mandava eu dar o fora dali na hora, mas claro que ignorei. Quem ia recusar uma grana de mais de 400 dólares por hora? Ninguém.

Dirigi até o lugar, que ficava uns 20 minutos da minha casa. Cheguei lá, bati na porta. Eles me receberam com um sorriso largo e um olhar sinistro nos olhos. Pegaram um papel da mesa e me mostraram a lista de regras — algumas eram sinistras pra caralho. Quando perguntei sobre isso, os ossos deles estalaram enquanto inclinavam a cabeça. “Não respondemos perguntas, querida.” “Tá bom... divirtam-se.” “Você também, querida. Vamos ver se você aguenta uma hora.”

Disseram isso batendo a porta na minha cara. “Meu Deus, gente esquisita sem manners nenhuma existe mesmo hoje em dia.” Virei pro moleque e vi que as pupilas dele tavam tortas, nada como na foto. Arrepios desceram pela minha espinha, e meus ouvidos zumbiam enquanto eu olhava praquela coisa. Recusei me aproximar; andei pra trás procurando algo afiado. Aquilo com certeza não era um bebê, provavelmente nem humano. Olhei pros pés e braços dele: cobertos por um tom azul fraco, como se tivesse congelamento.

Recuei e abri três gavetas até achar um caco de vidro. Trinta segundos se passaram... ATÉ AQUELA COISA PARTIR PRA CIMA DE MIM!

Tinha presas afiadas e mordeu minha perna. Gritei por socorro, torcendo pra vizinhança ouvir. Aquilo não desgrudava de mim. Finalmente o dominei com um soco, e ele rolou escada abaixo. Um suspiro de alívio enorme me invadiu, mas minha perna toda tava ensanguentada. A criatura me olhou com raiva e veio pra cima de novo. Dei um soco na cara dele até meus nós dos dedos sangrarem — a cara era dura que nem pedra. Peguei um caco de vidro pra esfaquear a barriga, mas ele agarrou minha mão e comeu o vidro! Percebi que minha única chance de vencer tinha ido pro brejo; agora só restavam os punhos.

Peguei uma garrafa de vinho e esmaguei na cabeça dele. O bebê rolou pra trás no tapete, gritando e chorando pelos pais. Fui devagar até a maçaneta, girei e abri a porta. Respirei fundo e saí correndo, deixando aquela merda pra trás. Corri até a casa mais próxima e bati na porta como uma louca. Uma velhinha aleatória abriu e disse: “Precisa de ajuda? Meu Deus, por que você tá coberta de sangue?”

Minha visão começou a embaçar. Apaguei na grama... Uma ou duas horas depois, acordei num hospital, e a polícia me acusou de homicídio em primeiro grau. Fiquei ali confusa e falei pro policial que tava me defendendo, que o bebê não era humano. O que ele disse me fez me arrepender de tudo: a polícia achou o corpo de um bebê de verdade. Me diagnosticaram com esquizofrenia e disseram que eu tava em crise. Minha boca caiu, lágrimas escorreram pela minha espinha. O que eu fiz.

Uma Conversa no Silêncio

Desde que eu consigo me lembrar, sempre tive aversão a ficar sozinho. Pra ser mais preciso, eu odiava pra caralho ser deixado sozinho com os meus próprios pensamentos.

Quando eu era bebê, meus pais contavam que eu chorava mais alto do mundo no segundo em que eles saíam do quarto. Mas quando a gente se mudou pra cidade, eles notaram que eu fiquei bem mais calmo. Mesmo quando me deixavam por conta própria, eu não berrava mais como antes. Eu sempre me perguntei o motivo, até chegar no ensino médio. Foi aí que eu entendi: não era a solidão que me apavorava; era o silêncio que vinha junto com ela.

O incidente rolou no meu último ano. A escola nos deu a chance de ir acampar num terreno remoto e bem conhecido lá no sul. Era uma reuniãozinha antes da formatura. Como era atividade escolar, não dava pra pirar muito.

Quando chegamos, já era meio-dia. Enquanto montávamos as barracas e o equipamento todo, me deram a tarefa mais simples: juntar galhos. Era a primeira vez na vida que eu me via cercado por mata fechada. Até então, tudo que eu conhecia era a cidade, com aquele barulho constante ecoando por todo lado e o fluxo interminável de gente. Por um momento, senti uma coisa que não conseguia explicar: uma empolgação louca de descobrir algo estranho e novo.

Fui avisado pra não passar das cordas que cercavam o acampamento. Os professores disseram que não era necessariamente “perigoso”, só que eu podia me machucar com as raízes grossas e a folhagem densa, ou talvez trombar com algum animal que aparecesse por ali. Eu obedeci as palavras deles, mas a curiosidade me empurrou direto até a beirada.

Eu disparei por entre as árvores. Quanto mais eu avançava, mais fracos ficavam os sons do acampamento. Viraram um sussurro quase inaudível até eu chegar na corda que separava o terreno da floresta selvagem e crescida.

Parecia surreal pra caralho, mas eu tinha um trabalho pra fazer. Comecei a catar galhos quando vi algo pelo canto do olho. Achei que era algum colega que tinha me seguido até o limite. Dei um “e aí” casual e continuei juntando a madeira caída.

Quando ninguém respondeu, um arrepio gelado subiu pela minha espinha. Juntei os galhos e olhei em volta. Um suor frio escorreu pelas minhas costas. Não tinha ninguém. Eu tinha certeza absoluta de que tinha visto alguém, e a pessoa não podia ter sumido sem eu ouvir os passos nas folhas secas.

Então, bem atrás de mim, ouvi um farfalhar suave.

Eu me virei rápido e vi… cinza.

Um vazio sem cor cobria tudo. Minhas pernas viraram gelatina na hora e eu desabei. Tentei gritar, mas nada saiu. Sentia o ar saindo da garganta, mas nenhum som chegava aos meus ouvidos.

Aí caiu a ficha: eu não conseguia ouvir porra nenhuma. Nem o vento nas folhas, nem o barulho das minhas próprias botas quando tentei me levantar. Eu queria ficar maravilhado com aquela impossibilidade toda, e foi nesse momento que eu ouvi.

“Só um pouquinho mais…”

Um sussurro rasgou o vácuo. Eu me virei e vi uma forma humanoide, mas completamente errada, encurvada sobre uma árvore e me encarando. Era do mesmo cinza sem vida que o mundo inteiro ao redor. Ele se levantou e começou a deslizar na minha direção.

Conforme chegava mais perto, os detalhes ficavam nítidos. Tinha uma boca em forma de buraco, sem lábios. Os olhos eram só fendas rasgadas, revelando dois pontinhos brancos finos como agulhas. O corpo era nu e liso como um manequim sem detalhes, e quando levantou as mãos, vi um brilho de lâminas afiadas no lugar dos dedos.

Ele deu um passo e parou. Um som alto e esmagador de folhas ecoou — mas não vinha dos pés dele. Vinha do ar em volta. Eu sentia uma alegria doentia pulsando da coisa.

“Só um pouquinho mais”, repetiu. A voz congelou meu sangue. Era a minha própria voz. Soava exatamente como uma gravação minha tocando num alto-falante quebrado e distorcido.

Ele congelou, parecendo um predador selvagem prestes a dar o bote. Abriu a boca num rugido silencioso, depois sussurrou de novo: “Só um pouquinho mais…”

Ele saltou. Eu nem pensei: corri. Disparei cegamente na direção onde achava que ficava o acampamento. De repente, o barulho abafado de gente conversando começou a voltar. Aos poucos o volume subiu. Pisquei os olhos e as cores do mundo voltaram com tudo, batendo forte.

Eu desabei na frente dos outros, soluçando de alívio. Meus colegas me olharam confusos e preocupados até um professor vir correndo. Eu estava hiperventilando tanto que desmaiei.

Acordei dentro do ônibus. A viagem tinha sido cancelada. Depois fiquei sabendo que, quando os professores foram investigar o lugar onde eu tinha caído, encontraram um pesadelo. Os galhos que eu tinha juntado estavam destruídos em pedaços. O chão e as árvores estavam cheios de marcas profundas e irregulares de garras.

Eles me perguntaram o que eu tinha visto. Tentei contar a verdade, mas eles descartaram como alucinação causada pelo choque. Não diminuíram o perigo, porém. Eles sabiam que alguma coisa tinha estado lá.

Isso foi há cinco anos. Desde então eu nunca mais saí da cidade. Pode me chamar de covarde, mas eu me recuso a voltar.

Estranhamente, eu saí dessa com o que meus amigos chamam de superpoder. Eu consigo chegar de fininho em qualquer pessoa. A verdade é que eu não produzo som nenhum de passo, a menos que esteja usando sapatos pesados ou andando numa superfície barulhenta. Meu jeito natural de andar é perfeitamente, anormalmente silencioso. Por outro lado, sou péssimo com segredos. Não importa o quanto eu tente, não consigo mais sussurrar.

Às vezes me pergunto se deveria voltar pra tentar recuperar o que perdi. Mas aí o quê? Não sei nem se conseguiria tirar aquelas coisas de volta da criatura. Então eu fico aqui, no meio do agito e do burburinho da cidade, onde nunca fica quieto.

A criatura pode ficar com os meus passos e com os meus sussurros. Eu fico com o que sobrou de mim.
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