segunda-feira, 7 de abril de 2025

A Casa

"Eu havia prometido a mim mesmo que nunca voltaria lá. Desde aquela noite, a casa permaneceu fechada, esquecida no fim da rua. Mas o tempo passou, e seu silêncio se transformou em poeira e rachaduras nas paredes. O corretor me disse que alguém estava interessado em comprá-la. Então voltei, apenas para arrumar as coisas e preparar a casa para venda. Simples. Rápido. Mas no momento em que toquei a maçaneta enferrujada... eu soube que não seria."

A porta cedeu facilmente, como se estivesse me esperando. O ar estava parado, mas não empoeirado — estava pesado. As pinturas nas paredes pareciam mais escuras do que eu lembrava. O silêncio dentro era perturbador.

Cada canto guardava memórias nossas. Seu riso na varanda, almoços de domingo, discussões que sempre terminavam em reconciliação. Mas depois daquela última briga, tudo mudou. Eu saí e ela ficou, chorando. Nunca mais a vi. Pelo menos não viva.

A sala de estar estava exatamente igual. O sofá torto, as almofadas amassadas. Na parede, as marcas do tempo pareciam sombras que não estavam lá antes. Subi lentamente as escadas para o segundo andar, onde ficava nosso quarto. Minhas mãos tremiam sem motivo aparente. A culpa pesava em meu peito.

No corredor, o ar ficou mais frio. Como se eu estivesse entrando em outro tempo, outra dimensão da casa. Passei por um dos quartos e algo me fez parar. Pelo canto do olho, vi uma figura atravessar a porta aberta. Era o rosto dela. Rápido. Tênue. Inconfundível.

Meu coração quase parou. Não podia ser. Eu estava sozinho. Mas eu vi. Eu vi. Aquela aparição não era minha imaginação. Era um aviso.

Entrei no quarto e não havia nada. Nenhum sinal de poeira perturbada, nenhuma presença, nenhuma vida. Mas seu cheiro familiar pairava no ar — não perfume, apenas... presença. Como quando alguém não partiu verdadeiramente ainda. Como se ela estivesse me observando de um lugar que eu não podia alcançar.

Sentei na cama e fiquei lá por um tempo. Tentando descobrir se era arrependimento, culpa ou algo além disso. Naquela noite — nossa última noite juntos — eu disse coisas que nunca deveria ter dito. Ela chorou. Implorou para que eu ficasse. E eu saí, batendo a porta atrás de mim.

Passei a noite no quarto. Não dormi. Toda vez que fechava os olhos, via sua sombra no corredor. E em algum momento, tive certeza: não era apenas uma sombra. Ela estava lá. Me observando.

De manhã, desci até a cozinha e encontrei uma xícara na mesa. A mesma que ela usava. Intacta, limpa, como se tivesse acabado de ser colocada ali. Não havia poeira nela. Estremeci. Aquilo não era possível.

Passei os dias seguintes preso ali. Não conseguia sair. Literalmente. As portas se trancavam sozinhas. As janelas não abriam. Meu telefone perdia sinal no segundo em que eu entrava. Era como se a casa tivesse me engolido por inteiro.

No terceiro dia, ouvi as escadas rangendo. Eu estava no andar de baixo e sabia que não havia mais ninguém ali. Olhei para cima e, por um segundo, vi o pé descalço de alguém desaparecer no topo. Corri para cima. Nada. Apenas a mesma presença, o mesmo frio.

Comecei a falar com ela. Pedindo desculpas. Dizendo que me arrependia de tudo. Dizendo que faria qualquer coisa para tê-la de volta. E o silêncio da casa parecia escutar. Até que uma noite, ela respondeu.

Era a voz dela. Baixa, atrás de mim. "Você voltou." Me virei num lampejo, mas só havia escuridão. Não era uma ameaça. Era mais como... uma constatação.

Depois disso, ela começou a aparecer com mais frequência. Às vezes ao meu lado na cama. Outras vezes, parada na varanda olhando para fora. Sempre silenciosa. Sempre com olhos fundos, como se não piscasse há anos.

A primeira vez que ela apareceu ao meu lado, congelei. Não senti medo — senti vergonha. Seus olhos não eram mais os mesmos. Pareciam poços escuros, profundos demais para encarar. Mas mesmo assim, implorei por perdão.

Ela não falou. Apenas estendeu a mão e tocou meu rosto. Fria como pedra, mas macia como quando estava viva. Fechei os olhos, prendendo a respiração. E desejei que ela me levasse com ela.

Na manhã seguinte, acordei sozinho. Mas seu toque ainda estava em meu rosto — uma leve vermelhidão. Comecei a pensar que talvez fosse justo. Talvez meu castigo fosse ficar ali com ela. E talvez ela estivesse apenas esperando que eu aceitasse isso.

Vivi a rotina de um homem condenado. Falava com ela, mesmo quando não respondia. Deixava uma cadeira puxada na mesa. Dormia do mesmo lado da cama de antes. E esperava.

Uma noite, ouvi algo cair no quarto. Era um dos nossos porta-retratos — aquele da viagem à praia. Estava no chão, vidro estilhaçado. Mas o estranho... o rosto dela havia sumido da foto. Como se ela nunca tivesse estado lá.

Aquilo me abalou profundamente. Comecei a suspeitar que ela estava apagando os rastros. Ou pior: me preparando para algo que eu ainda não entendia. Uma troca, talvez. Um pacto não dito.

No sétimo dia, ela falou novamente. "Você sabe o que eu quero." Sua voz era baixa, sem emoção. Não era um pedido. Era um lembrete. E eu sabia exatamente o que ela queria dizer.

Subi até o sótão. Havia uma corda velha amarrada a uma viga. Ela estava embaixo, no escuro, observando. Com um leve aceno de aprovação. E eu... por um momento, considerei.

Mas algo me impediu. Não foi medo — não mais. Foi um instinto primordial de sobrevivência. E quando hesitei, ela desapareceu.

No dia seguinte, algo havia mudado. As paredes pareciam mais estreitas, como se estivessem se fechando lentamente. O corredor, que eu lembrava como curto, ficava mais longo cada vez que eu passava por ele. A porta da cozinha rangia sozinha, mesmo quando trancada. A casa estava se desfazendo por dentro. Ou se adaptando ao que havia se tornado.

Uma prisão feita de culpa. E eu era o prisioneiro. Ou o visitante. Ou talvez o último pedaço de carne viva que ela ainda precisava. Para se tornar completa.

Tentei incendiar a casa. Fiz uma fogueira com as cortinas e móveis. Mas as chamas não subiam. Apenas dançavam baixo, como se estivessem zombando de mim. Ela não ia deixar acontecer.

Então gritei. Gritei tudo que havia guardado dentro de mim por dois anos. A verdade. Que sim, eu a amava. Mas nunca quis prometer o que não podia cumprir.

Naquela noite, ela apareceu uma última vez. Uma figura parada aos pés da cama. E pela primeira vez... ela estava chorando. Mas não disse nada.

Na manhã seguinte, a porta da frente estava aberta. A luz entrava como se o mundo tivesse voltado ao normal. Saí sem olhar para trás. Mas sei que ela ainda está lá. Esperando que eu cumpra minha promessa.

domingo, 6 de abril de 2025

O que é essa sensação de algo rastejando?

Minha esposa diz que acontece com todo mundo. Ela brinca dizendo que são os fantasmas das formigas que pisamos enquanto caminhamos, dos besouros e baratas que espantamos com chineladas no banheiro. Já li sobre isso em fóruns também, muita gente passa por isso.

Às vezes, sentimos aquela sensação estranha e formigante, como se tivesse um inseto em nós, mas na verdade não há nada lá.

Não sou alguém que acredita no sobrenatural. Não acredito no paranormal, no céu ou no inferno, nem mesmo em Deus. Não acredito em destino, e tampouco em sorte.

Mas agora não é mais uma questão de crença. Não posso negar o que sinto. Queria entender por que sinto isso, por que consigo senti-los o tempo todo, subindo e descendo, subindo e descendo. Por todo o meu corpo. Meu cabelo, meu rosto, meu tronco, pernas... tudo. Cada centímetro da minha pele parece coberto por eles.

Começou de forma simples. Eu estava prestes a dormir, cansado do trabalho daquele dia e exausto só de pensar no trabalho do dia seguinte.

Foi então que senti.

Parecia um inseto pequeno rastejando no dedo mindinho da minha mão esquerda. Tentei espantá-lo com a outra mão, ainda meio adormecido, mas ele continuava lá. Irritado, acendi a luz e levantei a mão para olhar direito.

Não havia nada.

Eu podia sentir ele rastejando, só da ponta do dedo até a base, nunca saía desse trajeto. Fiquei encarando minha mão, piscando rapidamente. Nada ali. Acordei minha esposa, que ao ouvir o que eu dizia (ela também meio dormindo), apenas disse pra eu esquecer isso e voltar a dormir.

Mas eu não conseguia ignorar. Tentei me deitar novamente, mas a sensação não parava. Passei a noite toda sem conseguir dormir. Esperava que parasse eventualmente, talvez quando chegasse ao trabalho...

Mas quando não foi embora depois de uma semana, fiquei preocupado. Liguei para meu irmão, que embora não fosse médico, havia estudado medicina alguns anos antes. Ele me garantiu que não era nada e que o corpo humano era estranho mesmo.

Eu tentei, de verdade tentei ignorar e seguir com minha vida. Fui a outro médico quando não aguentei mais, mas quando até ele disse que eu estava bem, não consegui mais aceitar aquilo.

Amputei meu dedo.

Era só um dedo; eu era operário da construção civil, já tinha sofrido ferimentos piores.

Foi um alívio. Um alívio imenso.

Mas eu devia saber que não ia parar por aí. No dia seguinte senti a mesma coisa no mindinho da mão direita, depois em cada um dos dedos, nas mãos, nos braços, nas pernas. Não importa o quanto eu tente, o que eu corte ou ampute, eles sempre estão lá. Subindo e descendo, subindo e descendo.

Agora os sinto correndo pelo meu pescoço. Minha esposa segura meu braço — o único que ainda tenho — implorando em lágrimas para que eu pare, para que eu procure ajuda.

Eu a empurro. Eles não podem ajudar. Ninguém pode ajudar. Eles vão continuar rastejando, sempre.

Subindo e descendo, subindo e descendo.

Levo a faca ao pescoço; talvez agora eles finalmente parem.

sábado, 5 de abril de 2025

O Jogo Assombrado

A primeira noite não foi tão ruim. Parecia uma estadia normal em hotel - estranha, talvez, mas nada muito fora do comum. Mas então veio a batida. Não era uma batida com a qual eu estava acostumado. Não era o tipo de batida que você esperaria do serviço de quarto ou da arrumação. Era... mais profunda. Mais lenta. Oca. O tipo que fazia sua pele arrepiar antes mesmo de abrir a porta.

Não abri imediatamente. Fiquei parado, ouvindo o silêncio que se seguiu. Meu coração disparou no peito enquanto eu sentia o ar ao meu redor ficar mais pesado, mais denso - como se algo tivesse acabado de entrar no quarto comigo. Eu sabia que deveria ter ignorado, deveria ter simplesmente ido dormir e fingido que estava tudo bem.

Mas não consegui. Abri a porta.

Não havia nada lá.

Exceto uma única carta de baralho no chão.

O Ás de Espadas.

Lembro de pegá-la. Lembro como estava fria em minha mão, como as bordas se cravavam em minha pele como se não devesse ser tocada. Mas antes que eu pudesse pensar sobre isso, as luzes do corredor piscaram e eu vi - por uma fração de segundo. Uma sombra, alta e retorcida, pairando logo além da porta. Não era uma pessoa. Não era algo de carne e osso. Era outra coisa. Algo... errado.

Bati a porta com força.

Foi quando a loucura começou.

Na noite seguinte, a batida veio novamente. Tentei ignorar. Tentei fingir que não estava ouvindo coisas, que as sombras do lado de fora da minha porta não estavam se movendo por conta própria. Mas quando abri a porta, o Ás de Espadas estava lá novamente. E a risada.

No início, pensei que minha mente estava me pregando peças. Mas então ouvi claramente. Risadas baixas e doentias que pareciam vir de todas as direções. E então os sussurros. "Jogue o jogo. Jogue o jogo."

Foi quando percebi. Isso não era apenas um truque bobo do hotel. Estávamos sendo forçados a jogar. E alguém iria morrer esta noite.

Os outros - os que estavam no hotel há mais tempo que eu - não pareciam se importar. Estavam calmos, quase calmos demais. Eles conheciam o jogo. Sabiam como funcionava. Eu podia ver em seus olhos. Suas pupilas estavam dilatadas, seus rostos pálidos como se não vissem a luz do dia há anos. Não estavam mais com medo. Tinham aceitado. O jogo era a realidade deles.

Eles nem tentaram escapar.

Não conseguia parar de tremer, de sentir como se as paredes estivessem se fechando. Podia ouvir o jogo começar - um por um, tínhamos que escolher. Quem morreria? Quem poderia sair? Mas a reviravolta? Não conhecíamos as regras. Tudo que sabíamos era que se não fizéssemos a escolha certa, todos morreriam. E o preço da sobrevivência era sempre a vida de outra pessoa.

Olhei ao redor, mas ninguém se movia. Os outros estavam olhando fixamente para frente, seus rostos vazios. Já estavam nele, profundamente no jogo, esperando o relógio marcar a contagem regressiva.

Eu não sabia o que fazer. Não sabia quem escolher. E então, o ar mudou. A temperatura caiu. As luzes piscaram mais uma vez, mas desta vez, não voltaram. O quarto mergulhou na escuridão. Mas eu podia ouvir - um arrastar, respiração, como se algo estivesse rastejando pelo chão, arrastando seu corpo em minha direção.

O rosnado veio em seguida, baixo e gutural, como se um animal estivesse andando atrás de mim. Mas quando me virei, não havia nada lá. Corri para a porta, abrindo-a bruscamente, mas o corredor estava diferente. Estava mais longo que antes. O carpete estava molhado, encharcando meus sapatos. Senti as paredes pulsarem. Podia ouvir meu coração nos ouvidos, batendo mais forte a cada segundo que passava.

Tentei correr, mas algo me segurou. Algo estava me puxando, me arrastando para a escuridão. Vi a sombra novamente - alta, impossivelmente alta. Estava parada no fim do corredor, apenas observando. Seu rosto havia sumido. Não havia nada. Apenas vazio.

Tentei gritar, mas nenhum som saiu. Minha boca estava congelada aberta, como se estivesse preso em algum pesadelo silencioso.

E então, a risada novamente. Ecoava das paredes, do chão, de todos os lugares. Não era humana. Nem chegava perto.

O jogo era real. E estava vindo por nós.

Na quarta noite, eu podia sentir a insanidade criando raízes. O hotel não era mais apenas um prédio. Estava vivo. Estava se alimentando de nós, manipulando cada pensamento nosso. As portas não levavam mais aos mesmos lugares. Os quartos mudavam. A planta do hotel se retorcia como uma espécie de labirinto, projetado para nos quebrar. E cada noite, o jogo piorava. As cartas vinham mais rápido. As escolhas ficavam mais difíceis. Cada vez que pensávamos que poderíamos sobreviver, as regras mudavam.

Não tinha certeza de quem eu era mais. Ainda era eu? Ou o hotel já tinha me levado?

A batida começou novamente. Mas desta vez, não era a batida usual. Era uma pancada, alta e insistente. Abri a porta e vi uma mão se estendendo da escuridão, dedos longos com unhas enegrecidas e quebradas, agarrando o batente como se tentasse se puxar para dentro do quarto.

Bati a porta com força e recuei, meu coração batendo forte no peito. O ar estava tão denso agora, que mal conseguia respirar.

Os outros? Tinham sumido. Não eram mais reais. Eu podia vê-los, mas não estavam lá. Seus rostos estavam distorcidos, como marionetes com cordas puxadas demais. Seus olhos estavam negros, vazios que sugavam a luz do quarto.

E então, atrás de mim, eu ouvi.

"Seu tempo acabou."

Me virei, mas não havia nada. Apenas o som do ar ficando mais pesado. Tentei me mover, mas o chão estava pegajoso, como se algo estivesse me puxando para baixo, me prendendo no lugar.

Tentei gritar novamente, mas nenhum som saiu.

A batida veio de novo.

Mas desta vez, não era na porta.

Era na minha mente.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

O Vidro Entre Nós

O beco estreito se dobrava sobre si mesmo. Cada curva revelava mais máquinas de venda automática, antigas portas de madeira, lanternas zumbindo em amarelo na noite de Tóquio. Kenji liderava com aquela confiança que os moradores locais têm. Eu seguia com os outros mochileiros do hostel. Só os conhecia há três dias. Kenji por apenas 48 horas.

"Tem certeza que é por aqui?" Emma perguntou, seu sotaque australiano cortando o ar úmido.

"Confie em mim," Kenji disse sem olhar para trás. "O lugar do Tanaka-san tem o melhor sushi de Shinjuku. Talvez de toda Tóquio. Mas turistas nunca o encontram."

Limpei o suor do rosto. Seis meses atrás, eu não teria feito isso. Seis meses atrás, antes de Sarah partir e levar metade da minha vida com ela, eu planejava tudo. Agora estou seguindo estranhos por becos em uma cidade estrangeira. Dizendo sim para tudo. Tentando fugir do sentimento vazio que me seguiu desde Chicago.

"Aqui," Kenji parou em uma porta sem identificação. Apenas uma pequena cortina azul pendurada acima. Sem placa. Sem cardápio. Nada que indicasse que era um restaurante.

Por dentro era menor do que eu esperava. Apenas um balcão simples com oito lugares. O espaço de trabalho do chef atrás dele, perfeitamente organizado. Paredes de madeira crua. Iluminação suave focada no balcão. Tanaka-san acenou quando entramos. Homem idoso com antebraços como cordas. Rosto não revelando nada.

"Falei que era escondido," Kenji sussurrou enquanto nos sentávamos. "Não precisa de reserva porque turistas não sabem que existe. Só locais e pessoas que conhecem locais."

Senti isso então. Aquele lampejo de pertencimento. De ser especial. Essas pessoas tinham me incluído. O chef começou a trabalhar sem dizer palavra. Sua faca refletindo a luz.

"Vamos fazer omakase," Kenji explicou. "Deixar o chef decidir. É tradicional."

O primeiro prato veio sem alarde. Peixe reluzente sobre pequenos montes de arroz. Textura diferente de tudo que já havia experimentado. Dissolvendo na língua como espuma do mar.

"Isso é incrível," Emma murmurou. Todos concordaram, perdidos na comida.

Foi quando notei a janela.

Não tinha visto quando entramos. Janela grande de frente para o beco. E ali, pressionado contra ela, um rosto. Meu rosto. Mas errado de alguma forma. Nos observando comer. Quando olhei fixamente, ele não desviou o olhar.

"Vocês estão vendo isso?" perguntei. Mas os outros estavam ocupados com a explicação de Kenji sobre a técnica do molho de soja.

No segundo prato—Tanaka-san abrindo um ouriço-do-mar, interior laranja vibrante sob a luz—havia três versões de mim na janela. Todas ligeiramente diferentes. Uma sorrindo demais. Uma com olhos vazios. Uma apenas olhando com tanta saudade que doía ver.

O chef trabalhava com precisão perfeita. Mãos certas enquanto limpava uma lula. Carne translúcida tremendo. Tentáculos ainda se contorcendo mesmo separados do corpo. Ele arranjou as peças cuidadosamente, pingando molho tão vermelho escuro que era quase preto.

Tentei me concentrar na comida. Mas a janela tinha se tornado uma galeria do meu próprio rosto. Cinco versões agora. Sete. Algumas sorrindo levemente. Algumas parecendo perdidas. Todas eu, mas não eu. Observando a mim mesmo comer com esses estranhos.

"Pessoal," disse mais alto. "Por que todas aquelas... pessoas estão nos observando?"

O grupo se virou, então olhou de volta para mim, confuso.

"Que pessoas?" Lisa perguntou.

"A janela—tem tipo dez 'eus' olhando pela janela."

Kenji olhou para a janela, então de volta. "Não tem ninguém lá, cara."

Virei novamente. Meus reflexos se aproximaram mais. Alguns sorrindo agora. Alguns parecendo bravos. Alguns com lágrimas escorrendo pelo rosto. Um gesticulando palavras que eu não conseguia entender.

"Vocês estão falando sério? Não veem eles?"

Emma tocou meu braço. "Ryan, não tem ninguém lá. Só o beco."

O próximo prato chegou—um peixe ainda se contorcendo enquanto Tanaka-san enfiava sua faca atrás das guelras. Seu olho olhando diretamente para mim. Sangue em linhas delicadas pela tábua de corte, que o chef limpou com eficiência praticada.

"Talvez você esteja mais afetado pelo jet-lag do que pensava," Diego sugeriu. Preocupado mas de alguma forma distante.

A multidão na janela tinha crescido. Vinte versões de mim agora. Algumas rindo de mim. Algumas chorando. Uma pressionando a palma da mão contra o vidro, deixando uma marca embaçada. Outra escrevendo algo na condensação, ao contrário para que eu pudesse ler de dentro: "ELA NUNCA VAI VOLTAR."

Suor brotando na minha testa. Estou alucinando? O chef cortou a barriga do peixe, removendo órgãos com dois dedos. O sangue tão brilhante contra a porcelana branca.

"Com licença," levantei de repente. "Banheiro?"

Tanaka-san gesticulou para o fundo sem tirar os olhos do seu trabalho. Caminhei instável, sentindo meus próprios olhos me seguindo pela janela.

No banheiro minúsculo, joguei água fria no rosto. Meu reflexo parecia errado—muito pálido, olhos muito arregalados. Eu tinha sido tão aberto com essas pessoas. Contei sobre Sarah naquela primeira noite tomando cerveja. Como ela disse que eu era muito intenso, muito carente. Como eu a tinha sufocado. Como eu tinha vindo ao Japão para encontrar algo novo, para me tornar alguém novo.

Eles estavam rindo de mim? Sentindo pena do americano triste com sua história de coração partido?

Quando voltei, o chef estava usando o maçarico na pele do salmão, gordura borbulhando sob chama azul. A janela agora completamente preenchida com versões de mim. Algumas tinham celulares, gravando minha humilhação. Uma usava exatamente a roupa que eu estava usando no dia que Sarah partiu. Outra parecia eu mas bem-sucedido, confiante, tudo que eu não era.

"Melhor?" Lisa perguntou quando me sentei.

"Vocês acham que estou louco?" soltei.

Eles trocaram olhares.

"Claro que não," Diego disse cuidadosamente.

"Então por que vocês não reconhecem o que está na janela? Isso é alguma piada?"

Kenji baixou seus hashi. "Ryan, eu prometo, não tem ninguém naquela janela. Só vidro refletindo o interior do restaurante."

Virei novamente. Um mar dos meus próprios rostos olhou de volta. Mais do que poderia caber no beco estreito. Alguns pareciam preocupados agora. Alguns gesticulavam "VÁ PARA CASA." Alguns usavam expressões de pena que me faziam querer gritar.

O chef colocou outra peça na minha frente. O olho deste peixe me seguia, me acusando de algo que eu não conseguia nomear.

"Talvez o sake fosse mais forte do que você pensou," Emma sugeriu gentilmente.

"Eu tomei uma taça," minha voz aumentando. "Não estou bêbado. Não estou louco. Estou vendo a mim mesmo—todas essas versões de mim—e vocês todos fingindo não ver."

As risadas de fora ficaram mais altas. Eu podia ouvir minha própria voz, multiplicada, zombando de mim.

"Ryan," Kenji disse baixinho, "não tem ninguém lá."

"Então que barulho é esse? As risadas?"

Eles pareceram confusos. "Que risadas?" Lisa perguntou.

O chef continuou trabalhando, imperturbável. Preparando fugu agora, o baiacu venenoso que poderia matar se cortado errado. Sua faca se movia com precisão cirúrgica, separando órgãos tóxicos da carne comestível. Observei, hipnotizado, enquanto ele arranjava fatias finas como papel em um padrão de crisântemo.

Meus reflexos pressionados contra o vidro, respiração embaçando em manchas. Alguns estavam batendo agora, tentando chamar minha atenção. Um usava o suéter que Sarah tinha me dado no último Natal. Outro segurava uma foto dela com outra pessoa.

"Preciso ir," levantei de repente.

"Mas estamos só na metade," Diego protestou.

"Não posso—preciso de ar."

Procurei minha carteira atrapalhadamente, deixando notas de iene no balcão antes de passar pelos outros. Senti seus olhos nas minhas costas enquanto ia para a porta, ouvi seus murmúrios preocupados.

Lá fora, o beco estava vazio. Sem reflexos, sem observadores, apenas noite úmida e sons distantes da rua.

Girei, olhando em toda parte. Nada. Fui até a janela e olhei para dentro. Podia ver meus novos amigos, seus rostos preocupados, Kenji dizendo algo com expressão inquieta. Tanaka-san continuava sua preparação meticulosa, inabalado.

Mas ali, no final do balcão onde eu estava sentado, havia outra versão de mim—mas diferente. Este parecia calmo. Em paz. Conectado com os outros de uma forma que eu não conseguia. Ele se virou lentamente para encarar a janela, olhando diretamente para mim com perfeita compreensão. Então sorriu, ergueu sua taça de sake em um brinde silencioso, e voltou-se para assistir a faca do chef brilhar na luz.

Me afastei da janela, coração acelerado. Os reflexos que eu tinha visto—estavam me alertando? Mostrando no que eu tinha me tornado? Ou o que eu poderia ser?

Encostei na parede do beco, respirando pesadamente. Eu poderia voltar para dentro, me juntar ao grupo, fingir que estava tudo bem. Eles me receberiam de volta com preocupação, inclusão. Conexão. Não é para isso que viajei meio mundo?

Mas quando olhei pela janela mais uma vez, tudo que vi foi meu próprio rosto refletido no vidro—sozinho, fragmentado nos painéis, me observando com incontáveis versões dos meus próprios olhos. A versão sentada no balcão, integrada com esses novos amigos, parecia mais real do que o eu parado do lado de fora no escuro.

Qual era o verdadeiro eu? Aquele que podia se conectar, ou aquele para sempre observando por trás do vidro?

Virei e caminhei rapidamente para longe no labirinto de becos, sozinho com o som da minha própria risada ecoando nas paredes.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon